Allan dos Santos organizava reuniões com deputados bolsonaristas, apontam depoimentos

O blogueiro Allan dos Santos, apontado como autor de mensagens em que sugere ‘a necessidade de uma intervenção militar, mantinha um grupo de WhatsApp com deputados bolsonaristas e ‘outras pessoas de baixo escalão do governo’ – as conversas resultavam em reuniões na residência do blogueiro, no Lago Sul, bairro nobre de Brasília.

As informações constam em três depoimentos colhidos pela Polícia Federal e obtidos pelo Estadão: do assessor parlamentar Tércio Arnaud Tomaz, apontado como integrante do ‘Gabinete do Ódio’, e do deputado federal Paulo Martins (PSC-PR). Ambos confirmaram as conversas virtuais e as reuniões organizadas por Allan.

Uma terceira oitiva, feita com o youtuber Adilson Nelseu Dini, do canal Ravox Brasil, também informou sobre a realização de ‘encontros’, ‘muitas vezes de confraternização’, na casa de Allan dos Santos por ‘pessoas que comungam a ideia de apoiamento ao presidente Jair Bolsonaro’ – entre os participantes estaria o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). O parlamentar prestará depoimento no inquérito no próximo dia 23.

“Os encontros, muitas vezes de confraternização, envolvendo amigos e pessoas que comungam a ideia de apoiamento ao presidente Jair Bolsonaro, que já ocorreram na casa de Allan, situada no Lago Sul em Brasília, onde algumas vezes participou Eduardo Bolsonaro, não é conhecido, e nem pode ser chamado, de ‘Gabinete do Ódio’”, afirmou Dini à PF, em junho deste ano.

Após a publicação da reportagem do Estadão, o vereador Carlos Bolsonaro reclamou da divulgação dos depoimentos.

Apesar do depoimento de Adilson Dini ter sido o primeiro a informar sobre ‘encontros’ na residência do blogueiro, foi a oitiva de Tércio Tomaz que confirmou que algumas reuniões no local eram organizadas por meio de WhatsApp. O assessor especial disse à PF que Allan de Santos o adicionou em um grupo criado ‘para que pudesse se reunir’ semanalmente na residência do blogueiro ‘para discutir temas relacionados ao governo federal com pessoas que estão dentro do governo’.

Tércio Tomaz afirmou que ‘nunca’ participou dos encontros, mas que continuou no grupo ‘como forma de se informar de temas de interesse’.

“Indagado quem participava desse grupo, respondeu que se recorda de Paulo Eduardo Martins, Daniel Silveira (Deputado federal pelo PSL-RJ) e outras pessoas de baixo escalão do governo”, apontou a PF. Silveira prestará depoimento nesta segunda, 21.

As reuniões na casa de Allan dos Santos com parlamentares da base do governo também foram confirmadas pelo deputado federal Paulo Martins (PSC-PR), ouvido na última terça, 15. Ele disse à PF que integrou um grupo no WhatsApp chamado Gengis House’ e que ‘acredita ter participado’ de um único encontro na residência do blogueiro, no ano passado.

Estavam presentes, segundo o parlamentar, os deputados Bia Kicis (PSL-DF) e Filipe Barros (PSL-PR), ‘além de outras pessoas, mas não se recorda no momento’.

“Indagado sobre os assuntos que eram tratados nessas reuniões, respondeu que tratavam sobre pautas conservadoras e articulações políticas para viabilização de tais pautas”, apontou a PF. Paulo Martins citou a ‘reforma da previdência’ como exemplo. “Indagado sobre quais assuntos eram tratado nesse grupo de WhatsApp, respondeu que eram abordados temas políticos, de comunicação, de acontecimentos e assuntos de interesses gerais que tinham repercussão”.

Um relatório da Polícia Federal já identificou, em maio, que o deputado Filipe Barros e o blogueiro Allan dos Santos atuam como supostos ‘influenciadores’ na divulgação de ofensas contra o Supremo Tribunal Federal (STF). O documento foi anexado nos autos de outro inquérito, que apura ‘fake news’ contra a Corte. Tanto esta investigação quanto a dos atos antidemocráticos são conduzidas pelo ministro Alexandre de Moraes, e se retroalimentam.

A deputada Bia Kicis, por sua vez, foi intimada a depor pela PF e deverá prestar oitiva na próxima sexta, 25, em Brasília.

Apoio

No mesmo depoimento, o deputado Paulo Martins disse que Allan dos Santos ‘conhece pessoas do governo e por isso tem canais para ser ouvido’. O blogueiro foi descrito como uma ‘figura importante, possuindo condições de propor política de interesse de seu grupo de apoio’.

No final da oitiva, Paulo Martins foi perguntado se ‘percebeu em sua relação com Allan dos Santos ‘ideias relacionadas a intervenção militar nas instituições’. O parlamentar respondeu que não, pois ‘não se coaduna com tal pensamento’ e que ‘não se permite relacionar com pessoas que tenham essa linha de pensamento e, se fosse o caso de Allan dos Santos, o declarante não se relacionaria com ele’.

As FFAA precisam entrar urgentemente’. Mensagens obtidas pela Polícia Federal e reveladas pelo Estadão neste sábado, 19, mostram que Allan dos Santos aparece ‘sugerindo a necessidade de uma intervenção militar’ ao tenente-coronel Mauro Cid, chefe da Ajudância de Ordem da Presidência e assessor do presidente Jair Bolsonaro.

Segundo os investigadores, Allan dos Santos enviou no dia 31 de maio um link de reportagem ao militar sobre grupos denominados ‘antifas’ – à época, os manifestantes protestavam contra o governo Bolsonaro.

No dia seguinte, 1º de junho, o militar respondeu: ‘Grupos guerrilheiros/terroristas. Estamos voltando para 68, mas agora com apoio da mídia’.

Allan dos Santos replicou: ‘As FFAA (Forças Armadas) precisam ENTRAR URGENTEMENTE’, ao que o tenente-coronel respondeu com um ‘Opa!’. Mauro Cid foi questionado pela PF e disse que o seu ‘Opa!’ era ‘apenas uma saudação, como, por exemplo, Bom dia!’, e não tinha relação com as mensagens do blogueiro.

Em outro momento, no dia 20 de abril, a PF disse que o blogueiro sugeriu a Mauro Cid ‘a necessidade de uma intervenção militar’. Naquele dia, o presidente Jair Bolsonaro sofria intensas críticas sobre sua participação em um protesto a favor da ditadura.

Segundo a PF, após receber a mensagem, o tenente-coronel respondeu ao blogueiro: ‘já te ligo’. Aos investigadores, disse ‘que acredita que não realizou a ligação’.

O teor da conversa com o tenente-coronel Mauro Cid contradiz depoimento do próprio Allan dos Santos à Polícia Federal, em junho. Na oitiva, o blogueiro afirmou que é ‘crítico à intervenção militar’ e que não participa ou organiza atos antidemocráticos. Allan disse que sua participação nos eventos ‘se restringe a atividade profissional como jornalista’ e não como manifestante.

“Como jornalista tem conhecimento de que os manifestantes em geral não possuem conhecimento histórico-literário e por isso procura entender suas motivações e, nesse contexto, procura mostrar para essas pessoas o melhor caminho, que não é a intervenção militar ou atos semelhantes”, apontou Allan, em depoimento.

Allan dos Santos é investigado no inquérito que apura o financiamento e organização de atos antidemocráticos. Ele alegou em julho ter deixado o Brasil. Investigadores suspeitam que ele tomou voo que saiu de São Paulo com destino ao México no dia 27 de agosto – não é confirmado se o país era o destino final do blogueiro. À época, o blogueiro havia sido alvo de buscas e teve as redes sociais bloqueadas por ordem do ministro Alexandre de Moraes.

COM A PALAVRA, ALLAN DOS SANTOS
A reportagem busca contato, desde sábado, 19, com a defesa do blogueiro Allan dos Santos. O espaço está aberto a manifestações.

COM A PALAVRA, O DEPUTADO EDUARDO BOLSONARO
A reportagem entrou em contato com o gabinete do deputado Eduardo Bolsonaro e aguarda resposta. O espaço está aberto a manifestações.

COM A PALAVRA, O DEPUTADO PAULO MARTINS
A reportagem entrou em contato com a defesa do deputado Paulo Martins e aguarda resposta. O espaço está aberto a manifestações.

COM A PALAVRA, O DEPUTADO DANIEL SILVEIRA
A reportagem entrou em contato com o gabinete do deputado Daniel Silveira e aguarda resposta. O espaço está aberto a manifestações.

COM A PALAVRA, A DEPUTADA BIA KICIS
A reportagem busca contato com o gabinete da deputada Bia Kicis e aguarda resposta. O espaço está aberto a manifestações.

COM A PALAVRA, O DEPUTADO FILIPE BARROS
A reportagem entrou em contato com o gabinete do deputado Filipe Barros e aguarda resposta. O espaço está aberto a manifestações.

Fonte: O Estado de São Paulo