Alvos de preconceito, assexuais lutam por inclusão na comunidade LGBT+

Beatriz, 23, já tinha lido sobre mulheres estupradas por um sujeito que dizia querer “endireitá-las”: por exemplo, um homem que violasse uma lésbica sob pretexto de “curá-la”.

Algo “muito louco”, mas que lhe parecia distante da sua realidade. Afinal, ela não gostava de meninas. Nem de meninos, para ser honesta. Não da forma convencionada pelo senso comum: com desejo sexual. 

Para essa cientista social, sexo era que nem festa de família: “Eu só comparecia por obrigação, e sempre saía aborrecida”. 

Beatriz insistia sempre porque, exatamente como o Natal na casa da tia com quem sempre briga por causa de política, achava que transar era “um imposto social” que todos devemos pagar para se encaixar na sociedade.

Despertou na madrugada, de blusa e sem sinal da sua saia ou da sua calcinha. O tal amigo roncava ao lado. Acordou-o, assustada, e ele pediu para ela ficar calma. “Disse que a gente tinha transado, que eu não era assexuada coisa nenhuma, aquele papo de ‘só não encontrou um homem que te pegue decentemente’.”

Beatriz sofreu algo que apavora a comunidade na qual se encontrou. “Há a ameaça do estupro corretivo, sofrida por tantos assexuais, praticada pelos próprios parceiros ou pessoas que se julgam capazes de ‘curar’ essa ‘doença’”, diz o manifesto do Coletivo Abrace.

O grupo agrega pessoas que se veem como assexuadas, o que é definido como “ausência total, parcial, condicional ou circunstancial de atração sexual”. 

Seus membros se reuniram no fim de outubro, numa faculdade em São Paulo, para discutir este tema que é tabu mesmo na comunidade LGBT+, que nem sempre lhes dá as boas vindas.  

“Desejamos ocupar um espaço que, legitimamente, julgamos ser também nosso, para que possamos, juntos, lutar pela mesma causa que nos une: o respeito à diversidade”, diz o texto que diz representar “estudantes e profissionais de todos os talentos e classes sociais, filhas, filhos, pais, mães, avós, netos”.

Se Beatriz prefere omitir o sobrenome, até por conta do trauma que passou, a artista visual Cris Varkulja, 48, é um dos rostos públicos do tema. “A gente não escolhe ser assexual, homossexual, bissexual. Nasce assim e pronto, não está sob nosso controle.” 

Ela usa sua própria história para mostrar os tantos tons de cinza dos quais a assexualidade é feita.  

Mãe de duas meninas, Cris conta que saiu do armário em 2017, após ir ao médico com o palpite de que estava às portas da menopausa. A falta de vontade de fazer sexo e se masturbar seria um sintoma?

Mas os exames voltaram ok, e ela encucou. “Fui pesquisar pessoas que não gostam de transar, algo assim. Caiu em assexualidade. Minha ideia de assexuado era quem não tinha interesse em praticar sexo.”

Pode até ter, mas não é o caso de todos. A artista, que já foi casada duas vezes, diz não sentir atração sexual, aquele comichão de ir para a cama com alguém. Já passou mais de dois anos sem querer saber de sexo. E tudo bem, conclui. 

Mas pode ser que um dia curta a ideia. “Se sou estimulada visualmente ou por toque, vou querer transar. Com o ser humano, não tem muito uma regrinha.”

Pessoas como Cris reclamam que, se expõem publicamente o que são, logo aparece alguém para patologizar sua orientação assexual. 

Muitos acabam encontrando acolhida em aplicativos de relacionamento para assexuais —ou “aces”, como eles se reconhecem.

O maior deles, AceApp, dá uma boa ideia do quão plural o grupo é. Há 13 formas de se definir por lá. Você pode se identificar como um assexual: 

1) arromântico (que não quer nada com relacionamento amoroso); 2) demirromântico (que só desenvolve um romance após se conectar com a pessoa de outra forma, como uma atração intelectual); 3) lithromântico (que até se apaixona, mas não quer ser correspondido, vira algo mais platônico); 4) homo ou hétero. E por aí vai. Tem até a opção de “estou confuso”. 

O advogado Walter Mastelaro, 32, penou para sacar qual era a sua. “Sempre soube que eu era diferente, vamos dizer assim.”

Teve aula de educação sexual a partir dos 10 anos, então sabia muito bem o que era sexo. “Com a puberdade, percebi que aquilo que interessava tanto as pessoas não era a minha.”

Insistiu para ver se uma hora pegava no tranco. A primeira vez foi com uma garota e “um desastre”. Ampliou o leque. Será que a sua onda eram garotos? 

Foi um balde de água fria. Lembra do que sentiu à época: “Puta merda, agora fudeu. Pra mim aquilo foi horrível. Se com os dois é ruim, e agora?”.

Há uma década, puxou para si o rótulo de assexual, não sem algum sentimento de incompreensão. “Era chamado de frio, sem sentimentos. Não é a mesma coisa que apanhar na rua, claro. A assexualidade tem o mantro da invisibilidade. Aos poucos, você vai sendo apagado. A sociedade diz que sexo é o que nos faz humanos.”

Breno Rosostolato, professor de psicologia na Faculdade Santa Marcelina, a que abrigou o congresso sobre o assunto, diz que a angústia que leva pacientes assexuais a seu divã é lidar com algo que o mundo ao redor vê “de uma maneira muito doentia, recriminando o lugar de fala deles”.

É comum acharem, por exemplo, que quem joga o sexo para escanteio foi vítima de abuso sexual na infância (argumento sem base científica também aplicado a homossexuais) ou tem algum empecilho físico, como frigidez ou disfunção erétil. 

Bobabem, diz Rosostolato. Ainda que traumas passados possam, em certos casos, desencadear aversão ao sexo ou impotência, o mundo assexual seria outra coisa. 

Segundo o psicólogo, adeptos dessa comunidade não têm dificuldade em gozar ou ejacular. A masturbação pode acontecer também, às vezes como forma de alívio fisiológico, como “desentupir o encanamento”. A própria Cris Varkulja conta que assiste a animes pornôs.

O que importa, afirma Rosostolato, é não se sentir doente num mundo que, como aferroa o ditado popular, só pensa naquilo. Ele lembra de uma brincadeira comum nessa galera: a de ter mais prazer em comer um doce gostoso do que em transar. 

O meme “fica, vai ter bolo” é resgatado nos perfis virtuais do Coletivo Abrace com a dica: “Aqui o bolo não é uma mentira”. 

Se na cultura os assexuais são tantas vezes representados como bobões virgens e tias carolas, a comunidade vibrou com um personagem da série animada “BoJack Horseman”. 

Aaron Paul (o Jesse de “Breaking Bad”) dubla Todd, que se descobre assexual na quarta temporada. O tratamento pouco estereotipado encantou seus pares na vida real.

“Muita gente veio até a mim, desde a saída do armário, dizendo: ‘Não sabia o que eu era. Você me deu uma comunidade que eu sequer sabia que existia”, disse o ator ao Buzzfeed. “Isso é de quebrar o coração, mas muito bonito também, sabe?”

Fonte: Folha de São Paulo