Campo dribla falta de internet para usar tecnologia de dados

Drones para capturar imagem da plantação e analisar seu desenvolvimento, sensores no solo para avaliar a necessidade de irrigação e análise de dados coletados por máquinas prometem trazer uma nova onda de ganho de produtividade no campo baseada na digitalização.

Porém tornar o uso dessa tecnologia de dados viável depende do desenvolvimento de ferramentas que permitam driblar a falta de conectividade em grande parte da área rural brasileira.

Cleber Soares, diretor-executivo de tecnologia e inovação da Embrapa, diz acreditar que a maior parte dos ganhos do setor virá da agricultura digital, de ferramentas como inteligência artificial, visão computacional e internet das coisas.

“Já se investiu muito em melhoramento da estrutura genética dos grãos, na melhoria do sistema de produção. Quem trará os próximos ganhos de produtividade será a economia digital”, afirma Soares.

Para tentar fazer com que essa promessa vire realidade, a fabricante de máquinas americana John Deere anunciou em maio parceria com a empresa de equipamentos de telecomunicações Trópico para instalar torres de transmissão em fazendas.

Rodrigo Bonato, diretor de vendas da companhia, explica que, quando há conexão, as informações colhidas por sensores das máquinas, como pulverizadores, tratores e colheitadeiras, podem ser transmitidas rapidamente para o escritório ou para a nuvem.

Com isso, ferramentas de análise de dados são capazes de dar orientações ao operador dos equipamentos.

Mateus Barros, líder de negócios para a América Latina da Climate, plataforma de tecnologia da Monsanto, diz que foi necessário adaptar os sensores que a empresa instala em máquinas nos Estados Unidos para que conseguissem coletar dados mesmo sem conexão.

O serviço da empresa combina dados sobre solo, plantio, clima e dados oriundos de máquinas, satélites e drones para dar recomendações para o produtor, como qual semente deve ter melhor desempenho no local, qual a data adequada para plantar e se há alguma falha na plantação.

A versão brasileira dos equipamentos envia as informações para tablets ou celulares via Bluetooth.

“A experiência vai ser ainda melhor quando a conexão à internet estiver presente. Mas, hoje, qualquer agricultor pode sincronizar a informação uma ou duas vezes por dia e ter benefícios”, diz Barros.

No caso da startup Agrosmart, que instala sensores no solo e nas culturas para avaliar a necessidade de irrigação e o risco de pragas, a opção foi oferecer ao produtor uma rede privada para permitir transmissão de dados.

“A responsabilidade por resolver isso deve ser nossa, não do produtor”, diz Raphael Pizzi, diretor de produto.

Ele explica que em regiões mais próximas a cidades, no Sudeste, a conexão é feita por GSM [tecnologia usada em redes de celulares]. Quando ela não está disponível, a empresa usa internet via satélite ou redes LoRa ou Sigfox.

Outra empresa nova do setor, a Horus, que fabrica drones e oferece serviços de mapeamento e monitoramento, de pragas e de problemas nutricionais, colocou nos equipamentos um cartão de memória para armazenar dados.

As informações são descarregadas mais tarde. “Temos resolvido a falta de conexão usando a criatividade”, afirma Fabrício Hertz, fundador da startup.

Na empresa agroquímica Adamá, a falta de conectividade limita até mesmo os tipos de cultura nas quais a empresa usa armadilhas inteligentes.

A ferramenta, uma caixa com adesivo de hormônio para atrair pragas, que ficam grudadas ao encostar nele, e câmera para identificar o número de insetos capturados para avaliar a necessidade de uso de defensivos agrícolas, é oferecida para plantações de maçã, que se concentram na região Sul, onde há mais conexão com a internet.

Também serviriam para soja ou algodão em estados como Mato Grosso, mas a falta de conexão impede o procedimento, diz Roberson Marczak, gerente de inovação da empresa.

Segundo Eduardo Tude, presidente da consultoria especializada em telecomunicações Teleco, as redes de internet no Brasil foram criadas para cobrir áreas urbanas.

“As operadoras de celular devem investir em bandas voltadas para a internet das coisas a partir de 2019 para atender a esse público [rural]”, diz.

 

 

Fonte: Folha de São Paulo