Cenário da eleição em São Paulo põe polarização em xeque

Com 11 pré-candidatos, disputa na capital paulista dá sinais de que vai romper com embate PT x PSDB dos últimos 16 anos e ter briga por voto bolsonarista. 

A três meses e meio do primeiro turno, a corrida pela Prefeitura de São Paulo já tem 11 pré-candidatos declarados. A disputa projeta neste momento o rompimento com a tradicional polarização PSDB x PT na cidade – os dois partidos disputaram o segundo turno três vezes entre 2004 e 2016. Indica também que não haverá, na capital paulista, a repetição do embate entre bolsonarismo e petismo que marcou a última eleição presidencial. Enquanto a direita conservadora busca os votos bolsonaristas, mas evita se associar ao presidente Jair Bolsonaro, a esquerda vê o PT isolado. 

Para o cientista político Carlos Melo, professor do Insper, a campanha em São Paulo deve ser marcada pelo que ele chama de “antipolaridade”: o antipetismo de um lado e o antibolsonarismo de outro. “A direita quer o eleitor conservador anti-PT, mas sem se estigmatizar como eleitor anti-bolsonarista. Já na esquerda muita gente aposta no pós-Lula”, afirmou Melo. 

Entre os postulantes, o pré-candidato do PRTB, Levy Fidelix, que comanda o partido do vice-presidente da República, Hamilton Mourão, é um dos que se definem como bolsonarista. Ex-aliado do governador João Doria (PSDB), Filipe Sabará, do Novo, também elogia o governo federal, mas evita o rótulo de apoiador do presidente. “Vou defender as coisas boas e criticar as ruins do governo dele (Bolsonaro). Vou buscar os votos da direita raiz.”

Aliada de Bolsonaro até o ano passado, a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP) deve buscar o voto da direita que tem críticas ao presidente. A mesma postura deve ser adotada por Andrea Matarazzo, embora seu partido, o PSD, tenha indicado o ministro das Comunicações no mês passado. “Costumo dizer que buraco de rua não é de direita, de esquerda nem de centro, mas precisa ser tapado.” 

No campo da esquerda, o PT escolheu o ex-secretário municipal de Transportes Jilmar Tatto como pré-candidato e deve caminhar para a disputa mais isolada da história do partido. Até o PCdoB, satélite petista desde 1989, pela primeira vez vai ter candidatura na capital, com o deputado Orlando Silva. Tatto é visto como um nome de pouca projeção – obteve apenas 6% dos votos na disputa por uma vaga no Senado em 2018. Apesar disso, o PT aposta em Lula para garantir votos. “O PT ainda tem a hegemonia da esquerda e Lula será o nosso grande cabo eleitoral”, disse o deputado estadual Enio Tatto, irmão do pré-candidato. 

Guilherme Boulos, pré-candidato do PSOL, também acredita na influência de Lula, mas duvida de sua atuação na campanha. “Justamente pela dimensão da sua figura, não creio que ele vai entrar de cabeça nas disputas municipais, ainda mais onde a esquerda está dividida.”

Além de ser uma resposta à polarização política dos últimos anos, a dispersão de candidaturas pode ser explicada pelo fim das coligações, na avaliação do cientista político Marco Antonio Teixeira, da FGV. A regra permitia que partidos se unissem para ter mais chances de atingir o quociente eleitoral – número formado pelo total de votos válidos dividido pela quantidade de cadeiras na Câmara. Apenas legendas que atingem essa cota conseguem eleger vereadores. A partir da eleição de novembro, não haverá mais coligações. Por isso, partidos menores veem na possibilidade de lançar um candidato a prefeito a chance de puxar votos na Câmara Municipal. 

“É até recomendável que partidos pequenos lancem um candidato próprio na disputa pela prefeitura, para atrair eleitores”, disse Teixeira.

A definição das candidaturas para comandar a maior cidade da América Latina ainda depende da realização das convenções partidárias. De acordo com o calendário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), alterado devido à pandemia do novo coronavírus, os partidos devem definir suas chapas entre 31 de agosto e 26 de setembro.

 

Fonte: O Estado de São Paulo