Desabafo de Veruska Boechat sobre luto revela o tamanho do tabu – Cláudia Collucci

“Dizem que estou bem, mas eu choro todos os dias. É muito difícil acordar, levantar, me arrumar e sair para a vida”. O desabafo da jornalista Veruska, mulher de Ricardo Boechat, que morreu em fevereiro em acidente de helicóptero, é o retrato nu e cru do luto, uma dor ainda difícil de falar e de ouvir.

Na entrevista ao UOL no último fim de semana, ela foi direto ao ponto: “quem não viveu a dor do luto, é difícil de entendê-la.” É isso, Veruska.

Embora os especialistas em luto digam que é preciso ter espaço na vida para lidar com as perdas, esse é um tema que ainda causa incômodo. É difícil de falar e de ouvir.

Na verdade, há um grande tabu em torno do assunto. As pessoas automaticamente o associam a baixo-astral, tristeza, e logo mudam de assunto. Portanto, Veruska, saiba que a dor do luto é essencialmente solitária. 

Falo disso por experiência própria. No próximo dia 4, completam-se três anos da morte da minha mãe. Nesse período, passei pelas cinco fases do luto relatadas pela psiquiatra suíça Elizabeth Kübler Ross, no livro “On death and dying” (1969). São elas: negação, raiva, negociação, depressão, aceitação.

Na última fase, a aceitação, é quando cada um consegue modificar o espaço da dor internamente e passa a ser capaz de se lembrar dos bons momentos que viveu com quem partiu. Encontro-me nessa fase, mas reconheço que, muitas vezes, ainda revisito as outras. Por que ela se foi tão rápido? Por que nenhum dos três médicos pelos quais ela passou naquele ano não diagnosticou o câncer precocemente? 

Além da psicoterapia, leituras sobre luto foram muito importantes para mim, especialmente no primeiro ano. O que me deu muita serenidade nesse processo foi ter a certeza absoluta de que tudo o que foi possível fazer diante de cada circunstância foi feito.

Não sobrou espaço para eventuais culpas, algo muito frequente quando se perde alguém amado e a pessoa se tortura pensando em tudo o que deixou de fazer ou dizer. Ainda que o luto materno esteja razoavelmente elaborado, a dor da perda persiste. Mais esporádica, menos intensa, mas vez ou outra ela se manifesta para lembrar que ainda está por aqui.

Isso acontece, por exemplo, diante de um novo luto, a morte de amigos, por exemplo. Perdas deixam muita saudade, e a gente tem que aprender a viver essa nova vida de ausências. Aceitar o fato de que não haverá mais aquele abraço apertado, o cheiro, o colo macio, o cafuné, as risadas.

E chorar sempre que der vontade. Não tem coisa pior do que aquelas situações em que as pessoas, na intenção de ajudar, vêm com aquele papo: “não chora não porque ela não iria gostar, não chora não porque o espírito dela não fica em paz”. Deixem as pessoas chorarem em paz, por favor.

Fazer ajustes na rotina para enfrentar a saudade também ajuda. Por exemplo, iniciar um curso, programar uma viagem, fazer um trabalho voluntário, enfim algo que proporcione prazer e traga sensação de preenchimento.

Com o luto aprendi a exigir menos de mim e a enxergar que só temos uma escolha: a vida ou a ausência dela. O período enlutado também me levou a conhecer um pouco da obra do filósofo existencialista francês Gabriel Marcel (1889-1973), que tem uma frase mais ou menos assim: “Amar é dizer: tu não morrerás para sempre”. Enfim, Veruska, sinta-se abraçada nesta dor.
 

Cláudia Collucci

Jornalista especializada em saúde, autora de “Quero ser mãe” e “Por que a gravidez não vem?”.

 

 

Foto: Veruska Boechat