Efeito-contágio de protestos e crise acendem alerta na América Latina – Sylvia Colombo

Se 2019 foi um ano tenso na América Latina —eleições turbulentas, renúncias, suicídio de ex-presidente, manifestações de rua—, 2020 não parece que será mais tranquilo. 

Este cenário deve continuar devido a particularidades de cada país, uma estagnação econômica que vive a região, uma crise de representatividade que inquieta a sociedade e uma espécie de efeito-contágio que os protestos provocam em países vizinhos.

O Chile, apesar de ter marcado eleição para nova Constituinte, ainda não se acalmou; a Bolívia deve seguir por meses cindida após a saída de Evo Morales e a falta de perspectiva, por ora, de uma eleição justa; e o Equador só adiou uma crise latente entre o atual governo e a população indígena.

Mas estes são os quadros que já estiveram complicados em 2019 e que não se resolveram, ainda, nesta virada de ano.

Outros países começam a entrar em ebulição. Na Colômbia, o desgosto da população com o governo tem vários motivos: aumento da violência devido às falhas da implementação do processo de paz; aumento do desemprego; não solução do problema daqueles que foram expulsos de suas casas pelas guerras internas; a chegada de mais de 1 milhão de venezuelanos que fogem da crise humanitária em seu país.

Por sorte, isso nem de longe lembra a Colômbia da época da guerra ao narcotráfico e dos ataques dos cartéis e das facções criminosas, quando havia bombas nas cidades e aviões eram derrubados. Porém, volta a lembrar que a violência parece ser parte da tradição histórica colombiana, tão bem descrita nas obras de Gabriel García Márquez (1927-2014), e que todo esforço de governo e sociedade serão necessários para alcançar nova forma de convivência com os que por quase seis décadas pregavam a luta armada.

Outro país cuja situação pode se degradar é a Argentina, que vem com inflação muito alta e sociedade muito polarizada. Especialistas calculam que, depois de alguns meses após o início do novo governo, se não houver alívio para a inflação de 55% ao ano, é possível que retornem panelaços e protestos.
Em um ano de gestão, o governo de Andrés Manuel López Obrador não conseguiu diminuir —ao contrário, aumentou— a cifra de homicídios, a corrupção e a estagnação econômica. E ainda tem a dor de cabeça de enfrentar a pressão de Donald Trump para que acolha os imigrantes centro-americanos que fogem das guerrilhas.
Por fim, a Venezuela e seu drama constante prometem novo capítulo em 2020, e muitos esperam que seja o último. Deve haver eleições legislativas, o que pode terminar com a legitimidade da única instituição escolhida sem fraude, a Assembleia Nacional opositora. Até lá, é possível que a temperatura volte a aumentar. A oposição, tentando manter os espaços em que ainda pode atuar, e o regime, endurecendo a repressão. Se em 2019 a esperança foi o despontar de Juan Guaidó, agora sua fórmula parece desgastada, e os que se opõem à ditadura de Nicolás Maduro devem encontrar outra estratégia.

Sylvia Colombo é correspondente em Buenos Aires

Fonte: Folha de São Paulo