Ex-chefe de inteligência de Maduro detalha atuação de ELN e Hezbollah na Venezuela

O ex-chefe do serviço de inteligência da Venezuela Manuel Cristopher Figuera, que fugiu para a Colômbia depois de coordenar um levante militar fracassado contra o presidente Nicolás Maduro, em abril, desembarcou na semana passada nos Estados Unidos e deu detalhes sobre a relação do governo chavista com Cuba, Hezbollah e a guerrilha ELN, entre outras supostas operações ilícitas.

Este homem de 55 anos diz que realmente acreditava na Revolução Bolivariana, tendo passado mais de uma década como chefe de segurança de Hugo Chávez, falecido líder socialista do país e mentor de Maduro. Ele também estudou profundamente a arte da inteligência com mestres comunistas cubanos antes de atingir o apogeu de sua carreira em outubro, quando foi nomeado chefe do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin) – o serviço secreto chavista.

No Palácio de Miraflores, onde segundo o Washington Post Maduro esteja cercado de conspiradores, desertores e ladrões, se havia uma pessoa de cuja lealdade o presidente da Venezuela não podia desconfiar era o general Figuera.

No entanto, quando o líder opositor venezuelano Juan Guaidó, apoiado por mais de 50 países, anunciou a tentativa tirar Maduro do poder com a ajuda de militares, o nome de Figuera apareceu como um dos coordenadores do movimento. Com o fracasso da iniciativa, no entanto, ele se viu obrigado a fugir para a Colômbia, onde passou dois meses escondico até conseguir deixar o país em direção aos EUA na semana passada.

“Estou orgulhoso do que fiz”, declarou o ex-militar em um quarto de hotel no centro de Bogotá, antes de viajar para os EUA. “Até o momento, o regime está à nossa frente. Mas isto pode mudar rapidamente”, completou.

A deserção deste homem, que se pensava ser intocável antes de passar para a oposição a Maduro, foi celebrada como uma vitória por opositores ao regime e por Washington, que a usaram como uma evidência, segundo eles, de que foram eficazes e que seu esforço permanece viável mesmo após o colapso do levante.

Segundo o Post, o ponto de ruptura de Figuera se deu em abril, depois de ele enviar uma mensagem a Maduro na qual descrevia a situação do país como deplorável e suger a convocasse eleições. O presidente venezuelano teria dito que ele era um “covarde pessimista”.

Acusações contra o governo

“Percebi que Maduro é o chefe de uma empresa criminal, com a própria família envolvida”, disse o homem que agora é chamado de “espião da CIA” pelo presidente Venezuelano. Nas 12 horas de entrevista ao jornal americano, o ex-militar revelou o que seriam graves atos de corrupção vinculados ao governo de Maduro. 

Ele citou negócios ilícitos de comércio de ouro com a participação de um assistente de Nicolás Maduro Guerra, filho do presidente, que teria estabelecido um monopólio para comprar o minério a preços baixos no sul do país para revendê-lo a preços elevados ao Banco Central da Venezuela.

Denunciou casos de lavagem de dinheiro vinculados ao ex-vice-presidente Tareck El Aissami, atual ministro da Indústria e acusado de narcotráfico nos Estados Unidos. 

O general acrescenta que também obteve informações que indicavam que grupos irregulares operavam na Venezuela com a proteção do governo, entre eles a guerrilha colombiana Exército de Libertação Nacional (ELN), que, em troca, ajudaria na defesa do governo chavista em caso de invasão do país.

Figuera também se referiu à presença do grupo xiita libanês Hezbollah em Maracay, Nueva Esparta e Caracas, com atuação supostamente ligada a “negócios ilícitos para financiar operações” no Oriente Médio. “Descobri que os casos de narcotráfico e de guerrilhas não deviam ser tocados”, explicou.

E revelou uma forte influência cubana no palácio presidencial em Caracas, com ligações constantes do ex-presidente de Cuba Raúl Castro ao líder chavista. “Raúl (Castro) era como um assessor de Maduro e se (Maduro) estivesse em qualquer reunião, esta podia ser interrompida se Castro ligasse”, afirmou.

Atuação no Sebin

Como chefe do Sebin, Figuera dirigiu uma agência acusada de detenções arbitrárias e tortura. Ele foi um dos cinco funcionários do alto escalão venezuelanos colocados sob sanções pelo governo Trump em fevereiro. A remoção das restrições contra ele indicam o nível de concessões morais que os oponentes de Maduro estavam dispostos a fazer no esforço para removê-lo do poder.

Figuera, no entanto, defende seu trabalho à frente do Sebin como algo que, de verdade, defendia o chavismo, apesar de mostrar arrependimento por alguns dos excessos.

“Eu tenho uma grande dívida com as pessoas que ainda estão na cadeia”, disse, com lágrimas nos olhos. “Aquelas pessoas que tinham parentes que morreram presos e nem sequer puderam vê-los… Isso mexe comigo.”

“Há muitas pessoas lá que são inocentes, e eu devo a elas. Eu não fiz o suficiente”, continuou. “Eu pensei que seria capaz de fazer Maduro ter bom senso. Mas não consegui.”

Figuera diz que foi seu trabalho à frente do Sebin, no entanto, que o fez ver a “podridão” dentro do governo de Maduro. “Eu nunca tinha visto situação do país e a corrupção do governo tão de perto quanto eu vi durante os seis meses (em que ficou à frente da agência).”

Nenhum dos acusados por Figuera, incluindo o governo venezuelano por meio de seu Ministério de Comunicações, quis comentar o caso. O Washington Post não conseguiu confirmar independentemente as acusações do desertor. 

Fontes:  THE WASHINGTON POST, AFP e EFE