Formação de políticos, juventude dos partidos mantém predomínio masculino

ID:4026501

Desde 1995, quando a primeira lei de cotas para candidaturas femininas foi adotada no Brasil, um antigo problema é alvo de debate: a formação política das mulheres. 

Como resolver a discrepância de gênero nos cargos eletivos se as próprias organizações onde surgem os políticos brasileiros são predominantemente masculinas?

Diante dessa lógica, a parcela feminina da população não estará devidamente representada entre políticos de um futuro próximo.

Levantamento da Folha entre juventudes de partidos políticos, grêmios estudantis e escolas de formação política indica que as mulheres permanecem sub-representadas na maioria dos cargos de liderança desses espaços. 

De 12 organizações hierárquicas (com cargos como presidente ou diretor) consultadas pela reportagem, apenas 3 são lideradas por mulheres. Elas estão em pouco mais de um terço dos cargos de executivas das juventudes —nacional, do estado e do município de São Paulo—  ou coordenações de movimentos sociais. 

Se somar também outras entidades sem essas relações de subordinação, em 7 de 19 consultadas as mulheres ocupam postos em igual ou maior número que os homens.

O MDB apresenta um dos casos mais discrepantes. Na executiva nacional da juventude da sigla há 33 homens e 4 mulheres. Na estadual, porém, os números quase se igualam: são 8 homens e 7 mulheres. 

Os esforços de renovação da sigla para modernizar acabam respingando nessa questão. Uma das vitrines do partido é a executiva nacional, cujo número de mulheres dobrou no ano passado.

João Doria (PSDB), governador de São Paulo, também tem investido nesse discurso. O PSDB, segundo ele, deve ser “cada vez mais o partido dos jovens e das mulheres”.

“As mulheres têm aquilo que nós, homens, não temos. Elas têm de sobra a sensibilidade e isso é essencial para cuidar do povo, dos mais simples, dos desvalidos”, afirmou o tucano em seminário do partido de dezembro de 2019.

O comando estadual da juventude da sigla, porém, tem apenas uma mulher, contra 8 homens. Trata-se de Kelly Mantovani, 25, que, apesar disso, diz não encarar a solidão negativamente.

“Não vejo como um problema, eu vejo como um avanço. Não por ser a única mulher, mas pelo fato de as mulheres ganharem espaço no partido”, afirma. A jovem, com cargo de tesoureira na juventude do PSDB, diz que a sigla tem 30% de mulheres no diretório municipal.

Na diretoria da UNE (União Nacional dos Estudantes) há 8 homens e 10 mulheres. Uma delas é a estudante e atriz Fabiana de Amorim, diretora de Cultura da organização.

Ela também faz parte do Juntos!, coletivo de jovens ligado ao PSOL. A instância nacional do grupo tem o dobro de homens em relação às mulheres. Fabiana afirma que a diferença foi por acaso e que, nos estados, o coletivo tem forte presença feminina. O que não evitou certo desconforto nos participantes.

“Essa coordenação foi formada há dois anos. Assim que nós juntamos as pessoas e sentamos dentro de uma sala, percebemos que tínhamos um problema. É algo em que, obviamente, nós queremos avançar”, diz.

Quanto ao apoio da ala masculina para essas mudanças, a estudante adota fala otimista. A geração que chega, afirma Fabiana, tem mais atenção para pautas feministas.

Isso seria parte da explicação, segundo ela, de um fenômeno que a reportagem identificou: a presença maior de mulheres em espaços políticos menos influentes.

Os grêmios consultados, por exemplo, têm mais participação feminina. “Isso tem a ver com a forma como a gente pensa a política e como ela é formada no país. A política institucional, o poder, é masculino”, afirma a jovem.

Entre os grêmios, um exemplo é o da Escola Estadual Dom Pedro 1º, de São Paulo. Na chapa atual, há 21 meninas e 15 meninos. Fernanda Adão, uma das integrantes da organização, diz que a composição majoritariamente feminina não foi de caso pensado. Segundo ela, as meninas são mais participativas.

“Nada foi imposto, elas tomaram os próprios espaços delas e nós sempre incentivamos as meninas a assumir postos de liderança”, diz.

Na Umes (União Municipal dos Estudantes Secundaristas) há paridade: são 11 homens e 11 mulheres. A organização é o braço municipal da Ubes (União Brasileira de Estudantes Secundaristas), que tem 7 mulheres em seus 15 cargos disponíveis. Uma delas é Maria Clara Arruda, diretora de Mulheres da união.

Mulheres nos cargos decisórios fazem diferença, segundo ela. Em 2018, por exemplo, a Ubes pleiteou a licença maternidade para alunas gestantes. “Antes isso era decidido com a escola, mas nada estabelecido por lei.” A medida aprovada estabeleceu o período de seis meses de licença.

Estudar as demandas e aprender a negociar e debater foram justamente as principais lições políticas que ficaram para Ana Julia Ribeiro das ocupações dos secundaristas de 2016.

Então com 16 anos, a curitibana ficou famosa por um discurso na Assembleia Legislativa do Paraná, que ocorreu em meio à mobilização nacional estudantil para barrar diferentes medidas de governos estaduais e do governo federal.

“Eu digo com tranquilidade que hoje nem os partidos, nem os movimentos sociais e nem as escolas dão para os estudantes a formação que um movimento como o de 2016 deu”, afirma ela.

Hoje filiada ao PT e ativa na juventude do partido, a jovem diz que pretende se candidatar ao cargo de vereadora nas eleições de 2020. Mas não dá certeza.

“Eu aprendi a construir um processo coletivo e valorizo muito isso. Então eu só vou colocar o meu nome à disposição quando construir um movimento que entenda o debate que a gente faz, de democracia parti