Golpista. E agora? – Celso Rocha de Barros

O debate sobre as intenções de Jair Bolsonaro está encerrado.

Jair Bolsonaro lançou seu filho Eduardo como boi de piranha para testar as águas do golpe de estado. Jair Bolsonaro ameaçou cancelar a concessão de TV da Globo porque ela fez denúncias contra ele.

Jair Bolsonaro ameaçou os anunciantes da Folha e cancelou as assinaturas do jornal nos órgãos públicos federais. Jair Bolsonaro postou um vídeo em que o Supremo Tribunal Federal, a oposição, toda a imprensa e a CNBB são caracterizados como hienas, e o fez para preparar uma radicalização.

Pode haver indícios mais fortes de que o presidente conspira contra a democracia? Sim, pode. Mas quando eles chegam —quando se fecha o Congresso, quando se prendem ministros do STF, quando se executa opositores e jornalistas— não dá mais tempo de fazer nada. Se é isso que você está esperando para dizer que Bolsonaro é autoritário, lembre-se que aí você não vai mais ter o direito de dizê-lo.

A reação da mídia e dos parlamentares à esquerda e à direita foi exemplar, e espero que siga como modelo para as outras crises que virão. Celso de Mello teve o brilho de sempre.

Mas faltou no Exército brasileiro aquele general chileno que disse que não, não estava em guerra com ninguém. Moro, que não seria ninguém sem o Estado de Direito e a liberdade de imprensa, calou-se. O bolsonarismo não sofreu qualquer sanção pela ameaça à democracia. Ninguém foi cassado até agora, nenhum ministro caiu.

E a guerra contra a imprensa segue, se acelera e baseia-se cada vez mais no recurso ao estrangulamento financeiro da mídia. É o que Orbán fez na Hungria. Eduardo Bolsonaro, o garoto AI-5, voltou de Budapeste no começo do ano dizendo que havia aprendido “como lidar com a mídia”.

Agora façam aqui comigo um exercício de imaginação. A ameaça de novo AI-5 não deu certo dessa vez. Mas quantos dos que não aderiram ao golpe teriam aderido se não temessem uma opinião pública informada pela imprensa livre? Se toda a imprensa fosse Edir Macedo ou Silvio Santos, teriam algo a temer?

Encerrado o debate sobre as intenções, vamos ao debate sobre as chances de sucesso. Esse é mais difícil. Bolsonaro quer o fim da democracia, mas pode ter perdido a janela do golpe quando as denúncias contra ele se tornaram mais graves. Os rachas em seu movimento, o olavismo, suas dificuldades em compartilhar poder sugerem que talvez seja um extremista old school demais para ser um novo autoritário, Jean-Marie demais para ser Marine Le Pen.

Mas espero que ninguém me diga que as intenções não são importantes. A caneta é dele, por direito. A democracia brasileira sobreviveu a 2019, mas a quantos 2019s mais sobreviverá?

Até agora, mesmo a oposição tem hesitado em propor impeachment. Tanto a esquerda quanto a direita moderada esperam que o autoritarismo bolsonarista apodreça sozinho. Isso seria mesmo melhor para o Brasil.

Mas será possível continuar assim por mais três anos? Há algum acordo possível, algum pacto, alguma nova coalizão que mantenha Bolsonaro sob controle até 2022?

Se eu quiser apoiar alguma reforma, tenho como fazê-lo sem fortalecer o autoritarismo? Eu votei no outro cara. Espero que quem elegeu isso aí tenha um plano para a eventualidade de Bolsonaro ser mesmo o que sempre disse que era.

Celso Rocha de Barros

Servidor federal, é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra).

 

 

Fonte: Folha de São Paulo