Hora de (re)descobrir as relações

As situações são todas muito diferentes entre si, dos recém-pais aos que dividem espaço em uma república com 20 pessoas. Mas o aprendizado de conviver e compartilhar liga a maioria dessas histórias

Casar, separar, conviver, compartilhar. Se a pandemia fez crescer o número de divórcios no País, o isolamento forçado também juntou casais que já pensavam em dividir o mesmo teto e só precisavam de um “empurrão”. Filhos adultos voltaram a morar com os pais – e a redescobrir os afetos familiares -, ex-casais se acertaram para transformar o momento atual em algo menos traumático para as crianças e amigos que já moravam juntos viram os laços se estreitarem. A quarentena bagunçou a rotina, mudou o cotidiano, aproximou, distanciou. Também fez mudar o foco da saudade e provocou o fenômeno da “proximidade excessiva”. Exigiu – e continua exigindo – doses extras de paciência e equilíbrio, mas deu a oportunidade para cada um se conhecer melhor e tempo para fortalecer as relações.

Abaixo, contamos histórias de quem está driblando esses meses de medo e incertezas e juntando aspectos positivos gerados no caos para levar como ensinamento para o resto da vida.

Três amigos isolados em um sobrado cool de Pinheiros

Idade semelhante, turma em comum, rotina agitada. A convivência pré-pandemia não poderia ser outra: pouca interação no dia a dia, mas muitos eventos na casa que a atriz Isabel Wilker divide há um ano e meio com os amigos Elisa Caetano e Antoine Kliot, em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. “Logo no início já foi uma badalação. Começou o festerê aqui, até com rotina de pré-carnaval”, lembra Isabel. “Depois, nós fomos entrando numa rotina cada um com seu espaço, muito livre.”

Tudo mudou com a necessidade de isolamento. Isabel, que já exibia até o cabelo da personagem que interpretaria em uma novela da Record, passou a ficar mais em casa com a impossibilidade de gravar. Elisa e Kliot geralmente não estavam ali durante o dia, por causa de seus trabalhos, e também tiveram de ficar em quarentena, no sobrado geminado típico da São Paulo de antigamente, onde vintage e cool têm espaço.

“A gente teve de ser organizar, cada um precisou escolher um lugar para trabalhar sem precisar ficar dentro do quarto, que também é meio confuso”, conta a atriz, de 35 anos. “A minha fase da novela ainda não estava sendo gravada, mas boa parte estava encaminhada até aquele momento de março. Não sei como fica a previsão agora. A Elisa está atendendo clientes como freela em marketing de moda e o Antoine, economista de formação, está fazendo formação de coaching e abrindo uma startup.”

Esse contato próximo vem estreitando ainda mais os laços e ajudando a superar as incertezas trazidas pela pandemia. “Vem sendo algo bem peculiar porque não é só passar mais tempo juntos. É passar tempo juntos numa situação difícil com muita frustração, muita angústia, com insegurança e, às vezes, mau humor”, afirma Isabel. A atriz diz que o trio conseguiu achar uma boa dinâmica, aprendendo a prestar atenção nas sutilezas e na energia uns dos outros. “A companhia foi importante para ninguém ficar nessa fossa de não poder ver as pessoas, de ter saudade da família e dos outros amigos todos.”

Eles passaram a dividir também seus projetos profissionais e a trocar ideia sobre o que estão fazendo. “Fiz trabalho para uma marca e chamei a Elisa para opinar. Volta e meia, ela me pergunta sobre um texto que tem para mandar e a gente conversa sobre isso. Compartilhamos tudo, não só o espaço físico.”

Isabel diz que vem acompanhando todo o esforço de seus colegas da classe artística para se reinventar durante a pandemia. A área cultural foi uma das primeiras a sentir o impacto da pandemia e continua entre as mais atingidas e muitos artistas vêm fazendo lives e leituras de texto em redes sociais, por exemplo. O caminho escolhido pela atriz neste momento, no entanto, foi diferente. Se dedicar a um outro tipo de produção, que antes fazia apenas quando tinha tempo disponível: a colagem.

Se ela vai ter alguma saudade do tempo de quarentena? “Estou achando o máximo esse convívio. Eu sempre morei sozinha, sempre tive medo de dividir espaço com alguém que não fosse marido ou algum parceiro”, afirma. “Mas eu acho que nesse momento foi muito importante estar assim, até para aprender a ser mais flexível, aprender a dividir tudo: o tempo, a paciência, o espaço. Nós demos muita sorte.”

Uma chance para o reencontro

Assim que começou a quarentena, Thayame Porto deixou Osasco e foi passar uns dias com a tia, em São Paulo. Logo recebeu a notícia de que a mãe, em Ribeirão Preto, estava com dengue e muito debilitada. Não teve dúvida: fez as malas e, aos 33, voltou para casa 13 anos depois de ter deixado a cidade.

Contadora de histórias, ela teve seus contratos suspensos no começo da pandemia. As lives que tinha começado a fazer em São Paulo continuaram no interior – e, desta vez, com os pitacos da mãe, a inspetora de alunos Norma, de 60 anos.

“Sinto pelo momento, mas é uma bênção ter a oportunidade de voltar, de fazer esse processo de olhar para dentro. Nesses anos todos, nos afastamos emocionalmente e estou muito feliz por reencontrar minha mãe, descobrir coisas sobre ela, sobre a separação dos meus pais. Estou fazendo as pazes com o meu histórico familiar”, conta Thayame. Juntas, elas, que se viam uma ou duas vezes por ano, “criam plantinhas” e fazem pão – e esperam o filho e irmão passar de bicicleta com a filha na garupa para dar um tchau do portão.

A sensação de Thayame é mais ou menos a mesma de Stefano Florissi, professor de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, de 51 anos, que saiu da casa dos pais no Recife para mestrado e doutorado nos Estados Unidos há 29 anos e só voltou para férias. Quando percebeu que haveria uma quarentena, ele, solteiro, pegou um avião e está, há exatos 4 meses, convivendo com Olindo, de 89 anos, e Edda, de 88.

No começo, foi uma sensação gostosa de férias. Depois, veio o déjà-vu. “Por mais velhos que sejamos, e eles também, é incrível como volta uma reação automática de todas aquelas coisas que a gente carrega da infância. Acabamos nos colocando naquela posição de criança e adolescente e eles, naturalmente, se colocam na posição de pais.” Mas essa fase já passou.

“Com um imenso respeito pelo que está acontecendo por causa da pandemia, digo que é uma bênção ter a chance de ter uma relação de fato adulta com os pais e dizer coisas como ‘eu te amo’, que não dizíamos porque somos uma família tímida. Tem sido incrível. Uma relação de companheiros, de pessoas que, juntas, conseguem rir das coisas do passado e agradecer o que se tem. Isso é o mais importante que quero levar da experiência da pandemia: ter podido resolver muitas coisas da nossa relação e essa sensação de cura, de cicatrização, de fechar portas que não tinham sido fechadas e com elas abrir outras.”

Uma família à espera do Halloween. E que ele possa ser com todos juntos

O Halloween só ocorre no finzinho de outubro. Mas a família da secretária Maria Pessôa, de 45 anos, já começou a se agitar. Sim, eles não sabem se vão poder se encontrar até lá – embora a torcida seja grande. Ou se o evento vai ser mais uma das várias festas que vêm fazendo virtualmente durante a quarentena. Só que a vontade e a expectativa de estarem juntos presencialmente fala mais alto e a preparação vira mais um motivo para as conversas. Acostumados a se reunir, seja nos almoços de domingo ou em eventos, eles procuraram desde o início manter toda essa conexão com ajuda de videochamadas.

“Tudo começou em março. Minha filha faz aniversário no fim do mês e decidimos comemorar só eu e meus filhos em casa. O mais velho pediu um delivery de salgados e eu fiz um bolo”, lembra Maria. “Para não passar sem a família fiz videochamada com as tias e cantamos parabéns.” Depois disso, as ligações e as festas online se tornaram cada vez mais recorrentes.

Eles fazem uma grande reunião mensal, com todos da família. Mas toda semana há pelo menos uma videochamada menor, daquelas para saber como estão passando, entre Maria e suas irmãs. Ou só com a participação dos sobrinhos. “Com esse isolamento, temos sentido muito. Então, nós começamos com as lives. Elas parecem festas até quando não são.”

Claro, todos falam ao mesmo tempo. Atrasos nos áudios também são comuns. Em vez de atrapalhar, os problemas rendem risadas e, no fim, todos se entendem. “Na verdade, até brincamos que a gente burla o Zoom, porque a ligação cai a cada 40 minutos, mas fazemos de novo. Da última vez, nem caiu quando passamos do tempo. Acho que até o Zoom já cansou de tentar nos derrubar.”

Assim como o Halloween que já estão planejando, os eventos costumam ser caprichados. Todos preparam a mesa e até se caracterizam de acordo com a ocasião, como fizeram no aniversário de uma das sobrinhas, que teve temática junina. Só de festas online, mais produzidas, já foram cinco.

Antes disso, ainda haverá o aniversário de Maria e uma de suas irmãs. As irmãs de setembro, nasceram nos dias 15 e 25 do mês. E costumam festejar juntas.  “Por ser uma família grande, todo mês a gente tem um aniversário para fazer festa. Isso fora as datas do calendário, como Dia das Mães e Páscoa.”

Maria ainda não sabe se seu aniversário e o Dia das Bruxas vão poder ser comemorados presencialmente. Seja como for, algo é certo: a família Pessôa já sabe que vai fazer uma festa daquelas quando tudo acabar, para celebrar o fim da pandemia e todas as outras datas em que só puderam se ver pela plataforma online.

Guarda compartilhada sem drama

A quarentena com crianças não é nada fácil. Imagine para pais separados. Com criatividade, compreensão e uma dose de boa vontade, ex-casais estão deixando as divergências de lado para tentar passar por esse período de forma um pouco mais leve.

A psicóloga Cristina Marques e o ex-marido, separados desde 2014 e sem nenhuma convivência desde então, se veem agora todos os dias. Para ela poder trabalhar, ele vai para a casa dela, no Rio, onde também se divide entre seu trabalho e os cuidados com os filhos, de 11 e 8 anos. “Agora há troca, conversa. Houve uma melhora, com certeza, e acredito que vamos colher frutos desse momento no futuro”, diz Cristina.

Em Ribeirão Preto, o consultor de vendas de veículos Fernando Stivale Regada está separado da mãe de seu filho há 3 anos e o contato entre os dois, ele conta, é raro. A guarda de Noah, de 5 anos, é compartilhada e até o começo da quarentena Fernando via o garoto a cada 15 dias. Agora, com a possibilidade de fazer home office em alguns dias da semana, ele começou a entrar em contato com a ex com mais frequência, convidando Noah para passar mais tempo com ele. “Tem sido ótimo, ampliou o nosso contato, estamos interagindo mais e ele está conhecendo a vida do pai e a rotina da casa do pai.”

O escritor carioca Marcelo Moutinho também está aproveitando o tempo que está tendo com Lia, de 5 anos. A guarda é compartilhada com a mãe, Juliana, desde 2017, e pai e filha se viam com certa frequência – dois dias na semana e um fim de semana a cada 15 dias. Mas antes havia a rotina da creche e, na soma, não eram tantas horas assim. Agora fazem bolo, brigadeiro e biscoito, e conversam. Desse novo contato, Moutinho conta, e de suas perguntas desconcertantes e seu olhar fresco para o mundo nasceram dois livros infantis durante a quarentena.

O que Noah e Lia estão experimentando agora, de passar mais tempo na casa do pai, já é algo habitual para Dionísio, de 9 anos. Com os pais separados há três anos, ele sempre trafegou bem de uma casa para a outra. Mora com a mãe, a editora Raquel Menezes, no Rio, mas, dia sim dia não, via o pai, o escritor e professor Luis Maffei. E quando ela precisava viajar a trabalho, ele passava períodos mais longos na casa paterna. Desde que a quarentena começou, e o trabalho da mãe se intensificou, Dio tem dado as regras. Escolhe quando vai e quando volta. “Estamos dando essa liberdade para ele, para que a experiência da quarentena seja menos ruim”, diz Raquel. Com as duas casas super isoladas, há até espaço para jantares e lanches entre pai, mãe e filho.

Um ‘empurrão’ da pandemia

Quem presenciou o reencontro por acaso de Gerson Brandão, de 35 anos, e de Paula Jalu, de 38, na saída de um bloco de carnaval cinco meses atrás, e 15 anos depois de terem se conhecido no trabalho, não faz ideia de tudo o que aconteceu de lá para cá. Teve uma brincadeira nas redes sociais aqui, um convite para almoçar ali, uma ou outra cerveja em bar. E eles começaram a ficar. Era início de março e o isolamento começaria, ainda que ninguém soubesse, em poucos dias.

O coronavírus foi se tornando uma ameaça real e como o irmão de Paula ainda se recuperava de uma cirurgia, ela ficou com receio de voltar para a casa dele, onde estava hospedada desde dezembro, quando voltou de uma longa temporada na Bahia, e de levar o vírus. Mas arrumou a mochila para ir algumas vezes. Na terceira, decidiu ficar na casa de Gerson.

Nesse meio tempo, uma amiga pediu para ela cuidar de sua casa e dos gatos, e para lá foi o novo casal. Depois, surgiu a ideia de dividir uma casa com amigos, mas não deu certo. Sobraram os dois. “Bem melhor, diga-se”, brinca o filósofo e padeiro. Hoje, os dois são felizes proprietários de um contrato de aluguel no centro de São Paulo, onde vivem desde o dia 3.

Foi tudo muito rápido, maduro e consciente. Paula já foi casada duas vezes – ela se separou do primeiro marido e ficou viúva do segundo. Gerson também teve dois casamentos. “A experiência é o que mais tem contribuído para esse projeto a que nos propusemos. Temos maturidade para acessar o que sentimos e expor para o outro”, diz Gerson. Isso deixa as coisas mais leves, conta o casal. “Adoro uma frase dele: ‘Tudo está sendo massa porque faz sentido’. É verdade. E resolvemos os problemas no dia, não deixamos nada acumular. E outra coisa importante é que nós dois fazemos terapia”, diz a estilista Paula, e ri.

Morar junto começava a surgir como um plano para a jornalista Luana Monteiro, de 29 anos, e o motion designer Felipe Dias, de 32, antes da pandemia. O aluguel dela acabaria em agosto e, quem sabe lá, os dois dariam esse passo. E então veio o isolamento social e os dois, que se conheceram por volta de 2008 na faculdade, no Recife, e começaram a namorar no ano passado, quando ele se mudou para São Paulo e um amigo em comum os reaproximou, as coisas se aceleraram.

No final de abril, ela foi de mala e cuia para o estúdio dele em Santa Cecília, região central de São Paulo. Ficou apertado demais e, uma semana depois, o casal recebia a mudança no Jardim das Acácias, na zona sul. “A gente enlouqueceria lá e talvez mudasse de ideia”, brinca Luana, que está cada dia mais certa da decisão que tomou. “Está sendo maravilhoso. Temos muita certeza de que queremos enfrentar isso tudo junto, com ou sem pandemia”, diz. “É maravilhoso morar com a mulher que eu amo e com quem eu quero passar o resto da minha vida”, completa Felipe.

Nascidos na quarentena

Esta é a segunda vez que Fernanda, de 37 anos, e Mayra, de 38, têm bebê, e a experiência da maternidade no isolamento se mostra, dia após dia, totalmente diferente. Uma loucura, sim, mas com muitos ganhos.

Se por um lado é mais difícil sem ajuda externa, e é mais difícil por não poderem dar aquela voltinha com o bebê de carrinho pela rua como quando, Fernanda Iqueda lembra, bate o desespero e a solidão do puerpério, por outro, tem sido tudo menos solitário.

“Quando a Clara, hoje com 3 anos, nasceu, meu marido voltou a trabalhar duas semanas depois. Agora, estamos os quatro juntos. Em boa parte da quarentena, foi ele quem se encarregou mais do Joaquim, que só tirava as sonecas no colo e dormia no canguru, no colo do pai, enquanto ele trabalhava”, conta Fernanda.

Os ganhos vão além da divisão das tarefas e, para os irmãos, esses 5 meses de convivência foram fundamentais. “Clara adora o Joaquim e interage com ele o tempo todo, e ele é completamente alucinado pela irmã.” Se não fosse pela pandemia, ela passaria o dia na escolinha.

Fernanda trabalha em banco, volta de licença em breve e está aflita com o home office. Se a escola estivesse aberta, trabalhar em casa, pelo menos alguns dias, seria bom para a família, considera. Ela ainda não sabe como tudo vai funcionar, mas, por ora, comemora poder amamentar por mais tempo.

Dos novos hábitos adquiridos no isolamento, Fernanda quer levar as refeições em família. Mayra Fukasawa, mãe de Stella, de 3 anos, e Alice, de 4 meses, também – antes, esses momentos aconteciam nos fins de semana, fora de casa.

Alice nasceu no início da quarentena e a família colocou o que pôde no automático. “Deixamos os eletrodomésticos trabalhando mais, procuramos receitas práticas, deixamos os produtos de limpeza agindo mais para esfregarmos menos e temos usado ainda mais a tecnologia”, conta. Sobra mais tempo para o que importa. “Acompanhar o desenvolvimento das meninas e ver dia a dia a relação das duas sendo construída é realmente um privilégio.”

A empresa onde Mayra trabalha, e onde é gerente de Marketing, adotou o home office em 2015, mas só foi depois da maternidade que ela deu valor a isso. “A vida é melhor no home office real e o que estamos vivendo hoje está longe de ser isso”, diz, e conta que já estão providenciando um segundo escritório na casa.

Aprendizado e companheirismo em uma república com 20 mulheres

Dividir o quarto com uma irmã já não é simples. Mesmo morar com a família, depois de certa idade, pode ser complicado. Imagine, então, compartilhar quarto, cozinha e banheiro em uma república só para mulheres, com faixa etária entre quase 20 e 30 e poucos anos, em meio a uma pandemia? Quem já está apostando que a tarefa é das mais complexas precisa saber que a experiência tem sido de muito aprendizado e também de companheirismo para as 20 moradoras da unidade Vila Mariana II da República Feminina São Paulo.

Antes, elas pouco se encontravam, no entra e sai das rotinas para trabalho e estudo. Quando sobrava um tempo nessa correria, marcavam para ir ao parque, ver uma exposição, assistir a um filme. Agora, a convivência está bem próxima. Momentos de risada na cozinha e de se sentar à mesa para decidir qual será a próxima festa se tornaram habituais. Aniversários viraram motivo para comemorações surpresa. Elas também fizeram um arraiá de São João, com direito a pratos típicos e roupas de caipira, e até festa do pijama. A presença masculina é proibida, uma das regras da república.

“As meninas falam que a gente grita na cozinha. É nosso grito de liberdade”, brinca Mayara Patrícia Soares de Medeiros, de 24 anos. “Estamos desde de abril em casa. Passamos a conviver muito e a nos conhecer mais do que se estivéssemos em família.” Várias das refeições são feitas juntas, muito embora cada um cuide de sua comida e precise lavar a louça que sujou.

Quando a quarentena começou, 10 das 30 meninas que alugam vagas na república foram passar um tempo com suas famílias. Cada uma paga cerca de R$ 500, com direito a televisão, ar-condicionado e geladeira em cada quarto, além de internet e diarista para limpeza. “Muitas foram embora para suas cidades natais, pois só estavam aqui pelos estudos. Quem ficou está fazendo home office e são poucas que trabalham fora. Então, ficamos 24 horas juntas aqui”, conta Mayara.

Ela, que era promotora de vendas em uma loja de departamentos, perdeu o emprego logo no início da pandemia. Com tempo disponível, vem se dedicando à pintura. Também começou uma horta com as amigas de república. “Ainda estou produzindo conteúdo a distância com o meu irmão e fazendo mais videochamadas com meus pais e amigos.”

Colega de quarto de Mayara, a gaúcha Cáthia Regina Quisinski, de 31, é uma das que voltaram a trabalhar presencialmente. Hipnoterapeuta, ela passou os meses iniciais atendendo por vídeo. “Barulho na casa é normal, são muitas meninas. Precisava me fechar no meu mundinho para fazer os atendimentos”, lembra Cáthia. “Agora, estou voltando ao presencial, mas tomando as precauções necessárias.”

Casada, ela havia chegado a São Paulo em fevereiro, só para estudar. Foi morar na república e ainda estava se acostumando com a ausência do marido, que ficou no Sul, e com o compartilhamento do espaço quando precisou fazer quarentena.  “No começo, foi difícil. Não conhecia ninguém na cidade, vim sozinha”, conta a gaúcha. “Estou aprendendo muito com elas, conhecendo culturas e modos diferentes de ver o mundo. Claro, às vezes, a gente precisa sentar e conversar para se adaptar. Mas é produtivo. Para mim, está sendo algo novo.”

Cáthia diz que durante esse período chegou a ficar receosa em relação ao futuro. “Mas houve uma aproximação maior entre nós. E algumas coisas melhoraram o nosso convívio”, conta. “Uma colega que trabalhava em dois empregos agora está fazendo tudo de casa. Temos mais contato. Com esse convívio próximo, desenvolvemos afinidades maiores e geramos amizades. Nesse sentido, é algo bom.” Assim como Cáthia e Mayara, muitas das moradoras vieram de outros Estados e só têm as colegas da república como apoio na capital paulista.

Apesar de todos esses momentos de união, há também a preocupação com as saídas de cada uma nas ruas. Chegando em casa, elas deixam um par de sapato na mesa de entrada e tomam banho para garantir a higiene, além do uso de máscara e álcool em gel. “A gente se gosta muito, se uma adoecer todas as adoecem”, diz Mayara.

 

Fonte: O Estado de São Paulo