Imagem desgastada e carência de liderança afetam chances do MDB

Apesar do anúncio do ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles como o pré-candidato do partido à Presidência, analistas ouvidos pelo Estado avaliam que o MDB carece de lideranças nacionais capazes de vencer a corrida pelas eleições presidenciais de 2018. A ausência de um grande nome acima dos problemas do partido, a falta de legitimidade das legendas tradicionais e a pulverização de partidos seriam motivos para fazer com que a sigla tenha dificuldades para ganhar espaço na busca pela Presidência. 

Para o cientista político Marco Antônio Teixeira, coordenador do curso de graduação em Administração Pública da FGV-SP, a imagem do partido neste momento é “a pior possível”. “O MDB está associado a um presidente, Michel Temer, que tem uma das maiores rejeições da história”, diz. Além disso, diz ele, o partido tem em sua cúpula um grupo alvo de desconfiança de boa parte da população. Teixeira pondera, no entanto, que outras siglas como o PT e o PP também têm a imagem desgastada pelo envolvimento em escândalos de corrupção.

O partido, que chegou a ter 260 deputados em 1986, conta hoje com 50 parlamentares na Câmara, sendo a terceira força da Casa, atrás do PT, com 60, e do bloco composto por PP, Podemos e Avante, com 71. No Senado, são 18 representantes, com a maior bancada. O professor da FGV avalia que o partido é forte em lideranças regionais, mas não no cenário presidencial. Em 2016, a sigla conquistou 1.028 municípios, bem à frente das 793 prefeituras conquistadas pelo PSDB. “Em eleições nacionais, o partido se divide, cada ala em torno de uma candidatura”.

Desde as eleições de 1994, quando lançou o ex-governador paulista Orestes Quércia, o partido não tem um nome para o pleito presidencial. Para Teixeira, é preciso esperar a estratégia do partido para ver se Meirelles será ou não candidato, já que o custo de construir uma candidatura nacional pode ser alto para os projetos regionais da sigla. 

‘Máquina na mão’

Na visão do cientista político Carlos Melo, do Insper, o partido tem grande relevância hoje por contar com os recursos econômicos e administrativos nas mãos. “O partido tem a máquina na mão, mas capacidade de influenciar, de impor uma agenda, de popularização, não”, afirma. Para Melo, o MDB tem trabalho para a manutenção de seu governo, principalmente porque o partido foi um dos mais atingidos pela Operação Lava Jato. “É uma governabilidade defensiva”. 

Para Ricardo Wahrendorff Caldas, professor de ciência política da Universidade de Brasília, o sistema político como um todo vive uma crise de confiabilidade. “Isso faz com que os eleitores busquem alternativas em partidos não tradicionais”, afirma. Para ele, qualquer candidato dos grandes partidos terá rejeição grande por conta do cenário político atual do País. 

“Há uma possibilidade de real de os partidos menores chegarem ao poder e há várias candidaturas alternativas surgindo”, diz. No momento, as pesquisas sem a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado e preso pela Operação Lava Jato, indicam como líder o deputado federal Jair Bolsonaro, do PSL, partido com poucos recursos em comparação com as grandes siglas. 

Relembre

A crise de legitimidade do sistema político também foi observada em 2014, quando 27,7 milhões de brasileiros deixaram de ir às urnas, 4,4 milhões votaram em branco e 6,6 milhões anularam o voto. Na ocasião, esses 38,7 milhões de eleitores (27% do total) representaram quantidade maior que os votos recebidos pelo segundo colocado do primeiro turno, o senador Aécio Neves, do PSDB, que foi a opção de 34,9 milhões de brasileiros. 

Para Caldas, a solução seria uma reforma política, que o sistema atual não teria interesse em fazer. “Já perdemos essa chance nos últimos anos. Hoje, ninguém vai fazer isso para se autodestruir”, afirma. 

Fonte: O Estado de São Paulo