Livro de Amós Oz produz teatro da vida real a partir da arte da conversa – Luís Augusto Fischer

Escritores experientes e provados estão entre os melhores sábios de qualquer aldeia. Sua capacidade de contar histórias, e com elas passar ao futuro algo do que aprendeu, tem algo de sublime, de tarefa civilizatória. Quando eles são estimulados a falar de sua atividade, expondo as memórias do que ocorreu antes e depois de produzir seus livros, o leitor ganha uma segunda vez, agora em plano mais sutil.

É isso que lemos em “Do que É Feita a Maçã”, livro que reúne não exatamente entrevistas, mas conversas entre a editora Shira Hadad e o grande escritor israelense Amós Oz (foto), morto pouco depois de produzir obra de relevo para seu país, sua gente e para todo leitor. Também ela uma leitora, em posição especial por ter editado o autor, Hadad é capaz de oferecer temas importantes e interessantes, assim como consegue se opor a posições expressas pelo escritor. O resultado é fascinante, uma espécie de teatro, mas da vida real.

O Brasil tem uma escassíssima tradição nesse particular. Passou a voga do rádio e da televisão e mal conhecemos a voz ou o rosto de tantos deles. Assim também é frágil a bibliografia de entrevistas, conversas, debates envolvendo escritores. Deixamos passar umas quantas gerações praticamente em branco —nem Machado de Assis, nem Graciliano Ramos ou Drummond, nem Guimarães Rosa, nenhum deles legou algo parecido com o que deixou, por exemplo, o vizinho Jorge Luis Borges, de quem há dezenas de entrevistas, debates, conferências, conversas. 

Mas podemos aprender, e o livro de Oz é lição preciosa. Em seis seções, cada qual centrada em um tema maior, ouvimos sua voz —auscultamos o seu coração aberto— ao abordar, por exemplo, o tema do amor e do sexo, da relação com as mulheres, tão diversa hoje do que foi a educação da geração do escritor.

Outra parte de grande interesse é a sua experiência como escritor formado em kibutz. Essa vivência socialista, que ainda hoje tem força em Israel, foi um viveiro de virtudes e de problemas, como quando, vivendo numa comunidade rural, quis ser escritor e requereu um dia sem trabalho físico para poder produzir literatura. Era razoável? Como isso se coadunava com a necessidade coletiva? E quem garantiria que daquele jovem, que nem sequer tinha cursado a universidade, sairia alguma coisa?

Oz até o fim da vida foi um partidário da solução de dois Estados para os conflitos entre judeus e palestinos, além de ter sido um pacifista, intelectual de primeira grandeza. “Do que É Feita a Maçã” nos oferece uma linda lição de vida, na gentil forma da conversa.

 

Fonte: Folha de São Paulo