Mulheres negras contam como é difícil arranjar emprego no País

A pedagoga Rejane Santos, de 34 anos, nasceu na Bahia, mas se criou em Paraisópolis e entende bem as mazelas da favela na zona sul de São Paulo. Ela é a idealizadora de um negócio de impacto social que ganhou o apelido de LinkedIn da Comunidade, por ter conseguido ocupação para mais de 700 pessoas em dois anos. São 5 mil currículos de moradores cadastrados, que Rejane conecta com empresas interessadas em contratar.

“O projeto nasceu para suprir essa necessidade e garantir que os moradores das favelas não fiquem em uma situação de extrema vulnerabilidade social, dada a falta de emprego no País”, explica a pedagoga, que é líder do Comitê Bairros e Comunidades do Grupo Mulheres do Brasil. O Emprega Comunidades também oferece cursos de capacitação presenciais e a distância para suprir a falta de qualificação de muitos moradores.

A tragédia em Paraisópolis, com nove jovens mortos, tem forte impacto na favela, diz Rejane. Pela dor que causa e pelo que deixa à mostra: a falta de políticas públicas e alternativas para jovens que moram em comunidades. “Eles vieram buscar lazer e, infelizmente, não voltaram para suas casas.”

Qual o impacto da tragédia do fim de semana para Paraisópolis?

A gente vem desenvolvendo um trabalho de mostrar o quanto Paraisópolis cresceu e se desenvolveu. Isso com a força das lideranças locais, com a participação do povo mesmo. A gente tem procurado mostrar o Paraisópolis das artes, o lado bom que tem aqui. Quando aparece de forma positiva, acaba atraindo investimento para a sociedade. Quando passamos por questões tristes e negativas assim, toda a comunidade é prejudicada. Até os investidores se afastam.

Haverá impacto no surgimento de projetos como o Emprega Comunidades?

Sim, acaba impactando. É investindo na comunidade e fortalecendo os negócios e os projetos que vamos superar essa situação. O que os jovens precisam em Paraisópolis é de políticas públicas. De lazer, em especial. Tanto os jovens de Paraisópolis quanto os de outros lugares não têm essas alternativas. Os que morreram aqui eram de outras comunidades, vieram de longe para buscar lazer, se relacionar com outras pessoas. Infelizmente, não voltaram para suas casas.

Quantas pessoas já passaram pelo Emprega e quantas foram realocadas no mercado de trabalho?

Temos mais de 5 mil pessoas cadastradas e já conseguimos emprego para mais de 700 pessoas.

Há contratações também fora da comunidade? Como funciona a relação da entidade com as empresas?

O Emprega Comunidades é um negócio de impacto social que funciona como o LinkedIn da favela. Criamos uma rede de relacionamento com as empresas da região e os candidatos moradores da comunidade. O projeto nasceu para suprir a necessidade de conectar empresas e candidatos da comunidade e também para garantir que os moradores das favelas não fiquem em uma situação de extrema vulnerabilidade social, dada a falta de emprego no País. É uma oportunidade de garantir que tenha, de fato, um público com diversidade dentro das empresas. É importante que as empresas entendam que não basta colocar uma pessoa de comunidade na organização. É preciso entender qual o potencial dela, apoiar e, de fato, dar oportunidade.

Quais serviços o Emprega oferece?

Atuamos em algumas frentes. Nós somos a primeira facilities de favelas, que oferece terceirização de mão de obra, ou seja, podemos contratar profissionais para empresas que não querem ter vínculo empregatício. Somos também uma agência de emprego. O candidato da comunidade vem na agência e cadastramos o currículo dele. Sempre que uma empresa procura um profissional, fazemos a indicação de acordo com o perfil pedido. Além disso, oferecemos cursos de qualificação e empreendedorismo presenciais e a distância, em parceria com o canal Transformadores. Por último, oferecemos contratações de mão de obra pontual.

Qual público procura o projeto?

Mulheres são maioria no Emprega. Isso porque, em Paraisópolis, elas costumam ser chefes de famílias e sentem as dificuldades mais de perto. Muitas são jovens, mães e solteiras, que fazem jornada tripla de trabalho. A gente precisa apoiar essas mulheres, porque o emprego dá mais autonomia, melhora a autoestima delas e evita que famílias inteiras entrem em situação de extrema vulnerabilidade social. Quando a mulher não está empregada, fica mais exposta a problemas de autoestima e até a situações de violência doméstica. 

Fico feliz que minha visibilidade sirva como um momento de pensar a visibilidade para a autoria negra 

Conceição Evaristo diz que veio ao mundo sem nenhum privilégio, a não ser o da força do desejo. Nascida na Favela do Pendura Saia, em Belo Horizonte, decidiu romper a trajetória das mulheres da família e fugir do caminho que lhe foi predeterminado. Aprendeu a ler no porão da escola. Ainda menina, limpava a casa de professores para receber livros. Formou-se professora enquanto trabalhava como empregada doméstica e, com o conhecimento adquirido, ajudou a alfabetizar os irmãos e as crianças da vizinhança.

A força do desejo a motivou a querer mais: saiu de Minas Gerais para estudar Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde iniciou uma trajetória solitária. Passou a ser a única mulher negra naquele espaço. Acreditando que na educação estava sua melhor saída, persistiu no meio acadêmico. Fez mestrado na PUC do Rio e doutorado na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Inspirada em suas vivências e na literatura oral, que aprendeu em casa, escreveu uma série de contos e poemas publicados em 1990 na coletânea Cadernos Negros. A partir daí, começou a contar mais histórias sobre discriminações raciais, de gênero e de classe. Apesar de ter diferentes obras publicadas no exterior, ficou mais conhecida no Brasil nos últimos dois anos, especialmente nos festivais literários. Afirma que o reconhecimento veio tardiamente devido à condição de mulher negra.

A escritora, hoje com 73 anos, não romantiza sua trajetória. No ano passado, ela concorreu a uma vaga entre os 30 imortais da Academia Brasileira de Letras. Recebeu apenas um voto, que não sabe se foi por ironia ou pela coragem de alguém que entendeu a importância de ampliar a representatividade na instituição. Apesar do apoio das redes sociais, não pretende se candidatar outra vez. Prefere escrever sobre a experiência. No próximo dia 28, será homenageada como personalidade literária do ano pelo Prêmio Jabuti.

Confira, abaixo, os principais trechos da entrevista:

O reconhecimento tardio de sua obra está ligado ao fato de ser uma mulher negra?

Sim. As mulheres negras encontram muito mais dificuldades em suas carreiras. A literatura brasileira é marcada por sujeitos brancos e héteros. As mulheres brancas passam a ter uma presença maior a partir do Modernismo, mas só recentemente as vozes negras ganharam a cena literária. Essa dificuldade acontece com as pessoas negras que querem se afirmar em qualquer espaço de trabalho. Nas direções das grandes empresas, por exemplo, onde estão as pessoas negras? Na área da comunicação, onde estão os jornalistas e as jornalistas negros? Nas altas patentes do Exército, dificilmente você encontra um sujeito negro. E a instituição literária, como tal, está dentro desses modos de relações raciais no Brasil.

A trajetória da senhora lembra a de Machado de Assis, que também mudou de status social pela literatura. Como analisa os debates recentes sobre o processo de “embranquecimento” dele?

O Machado é um dos casos mais instigantes na literatura brasileira. É muito recente para a academia e para alguns críticos literários assumirem ou pensarem essa negritude de Machado. Consigo pensar em Machado de Assis negro. Consigo também entender que, se Machado de Assis não tivesse passado por esse processo de embranquecimento, ele não teria fundado a Academia Brasileira de Letras (ABL). Determinadas qualidades são como de pertença de sujeitos brancos. Então, era preciso maquiar Machado de Assis como um sujeito branco. Um sujeito negro não poderia ser dono de tanta competência.Como Machado de Assis era um negro da pele mais clara, dava para transformá-lo num sujeito branco. Agora, como transformar Cruz e Souza, que tinha um tom de pele mais ou menos como o meu? Seria através da própria obra literária dele.

A senhora concorreu a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, no ano passado, mas recebeu apenas um voto. A que atribui esse desempenho?

Algumas pessoas acham que devo concorrer novamente. Tenho uma dúvida muito grande, porque eu não vou conseguir mudar as regras do jogo. Para mim, a regra teria de ser a obra, mais nada. E a obra está aí. Estava disponível para todo e qualquer acadêmico ler. Mas eu era nova na casa, nas relações e não fiz os rapapés necessários – e não vou fazer. Minha candidatura nasceu de um desejo coletivo. Um grupo de professoras e de pesquisadoras da Bahia decidiu me lançar. O (vereador do PT-SP) Eduardo Suplicy foi um dos primeiros a ir ao Facebook, assinar o manifesto e conclamar que lessem a minha obra. Então, não posso nem dizer que foi a alta adesão foi do movimento negro. Foram mais de 20 mil assinaturas, com pesquisadores brancos, negros, internacionais. Provavelmente, não devo me candidatar mais. Pode até ser que amanhã, diante de tantas pessoas pedindo, isso aconteça. Mas se acontecer, não vou fazer jantar nem nada disso. Se eles quiserem um piquenique, um churrasquinho em Maricá, onde moro, mas cada um levando alguma coisa, uma contribuição, até podemos pensar. E não seria só para acadêmicos não. Se vizinhos quisessem chegar, se leitores quisessem chegar… A gente poderia fazer uma grande festa. O que é mais possível de acontecer é eu escrever a história dessa candidatura. Se a ABL já não me queria, agora vai me querer ainda menos. Um papel histórico eu já cumpri, o de me candidatar. Outros escritores negros vão continuar esse processo. Em algum momento, a academia vai incorporá-los. Esse um voto não é nada que me envergonhe. A vergonha foi para a Academia.

A senhora já descobriu de quem foi esse voto?

Não. Acho que foi um voto de caridade. Sabe quando o sujeito já está quase morrendo e você dá um tiro de misericórdia? Foi um tiro de misericórdia. Ou foi um voto irônico ou de uma pessoa bastante corajosa, que entendeu a urgência e a modificação do tempo.

Como recebe o reconhecimento do Jabuti?

O que a ABL está deixando para trás, o Jabuti tem acompanhado com mais inteligência e sensibilidade. Quando ganhei o Jabuti por Olhos d’Água, me lembro de ter dito que era um prêmio da solidão, porque eu não via mais pessoas negras, nem como concorrentes nem como classificadas. Nem por isso a minha fala criou mal-estar na organização. Ao me conferir o prêmio, o Jabuti abre espaço para autoras e autores negros. Fico feliz que minha visibilidade sirva como um momento de pensar a visibilidade para a autoria negra.

Um conceito que a consagrou na literatura foi o da “escrevivência”. O que significa esse termo?

Venho trabalhando com esse termo desde a minha dissertação de mestrado, em 1995. Eu fazia uma espécie de colagem entre os verbos escrever, viver e se ver, que ficaria mais ou menos assim: escrevivendo-se: escrever se vendo. A primeira vez que uso esse termo é no seminário Mulher Literatura, em que eu terminava o texto dizendo que a nossa escrevivência não é para ajudar no adormecer da casa grande e, sim, para acordá-la de seus sonos injustos. O corpo da mulher negra, na escravidão, estava escrito na economia da produção, porque ela tinha de cozinhar, na economia do prazer, porque o senhor o tomava quando queria, e na economia da educação, porque era essa mulher que cuidava e educava esse corpo. O corpo e a fala dela eram de pertença do senhor e da senhora. Ela tinha de contar as histórias, querendo ou não. Hoje, essa autoria negra não é para adormecer a casa grande. É para acordá-la dos sonos injustos.