Nenhum remédio será cura para Covid-19; esperança é a vacina, diz cientista

Derek Lowe tem trabalhado mais horas por dia do que consegue se lembrar.

Com os laboratórios fechados em razão da pandemia do novo coronavírus, o doutor em química orgânica pela Universidade Duke, nos EUA, tem se dedicado em casa à leitura cuidadosa dos mais novos artigos e pesquisas sobre remédios para combater a Covid-19. Mas seus prognósticos não são otimistas.

Em entrevista à Folha, Lowe afirma que não há substância que pareça promissora contra a doença até agora e que, apesar de muitos medicamentos estarem sendo testados diante do novo vírus, nenhum deles deverá ser a cura para a Covid-19. “A vacina é uma esperança muito melhor.”

Colunista do site da Science Translational Medicine, um dos braços da revista Science, Lowe conta que tem sido criticado por relatar a pouca eficácia da cloroquina e da hidroxicloroquina em seus textos, mas avalia que defender a substância sem provas científicas é “irresponsável e nocivo.”

“Tento relatar os fatos como os vejo, não o que pessoas desejam ser verdade, o que ouviram como rumores ou o que seus políticos ou apresentadores de TV favoritos acreditam […] Dar falsas esperanças é cruel.”

Qual é a substância mais promissora hoje contra a Covid-19?  
Não tenho certeza se já existe uma, se você quer dizer medicamentos que atacam diretamente a doença. O remdesivir e os outros antivirais de epidemias passadas não parecem muito fortes. A cloroquina e a hidroxicloroquina nem sequer são bem caracterizados como antivirais e também não têm tido muito efeito quando você olha para testes controlados. Existem alguns outros compostos, como o alvesco (ciclesonida), que estão sendo testados, mas não temos dados.

Por que é tão difícil criar um medicamento eficaz contra a Covid-19?
É difícil criar um medicamento contra qualquer coisa. A taxa geral de insucesso dos testes clínicos é de cerca de 90%. Os antivirais têm sido desafiadores ao longo dos anos, porque os vírus têm poucas “partes móveis”. Eles são bastante simples em comparação com uma célula viva, portanto, há menos alvos que você pode mirar. Eles também se reproduzem tão rapidamente que podem encontrar mecanismos de resistência e contornar o medicamento.

É o mesmo problema com bactérias; elas se reproduzem tão rapidamente e estão sempre se transformando em formas ligeiramente diferentes, principalmente quando você as pressiona.

É por isso que as terapias medicamentosas antivirais bem-sucedidas (hepatite C, HIV) são coquetéis, com vários medicamentos diferentes ao mesmo tempo, cada um atingindo o vírus de uma maneira diferente.

Especialistas falam em 12 a 18 meses para que uma vacina seja produzida. Devemos depositar nossas esperanças nos remédios?
O prazo de 12 a 18 meses quebraria todos os registros existentes para uma vacina contra uma nova doença. [Para] o ebola levou cinco anos, e esse é o atual recordista. Pode ser feito, mas tudo terá que funcionar direito —e por isso é bom que tantas vacinas estejam sendo testadas, porque definitivamente nem todas vão funcionar.

Quanto a outros medicamentos, gostaria de ter alguma esperança, mas, como mencionado acima, não temos muitos candidatos. Uma coisa boa poderia ser o tratamento para a “tempestade de citocinas”, que parece estar matando alguns pacientes. É quando o sistema imunológico reage exageradamente à infecção e causa danos nos pulmões e outros problemas. Temos vários medicamentos sendo testados contra isso, portanto, enquanto eles não matam o vírus, podem impedir que muitas pessoas morram se ficarem doentes.

Em quanto tempo podemos contar com um remédio que trate a Covid-19?  
Os medicamentos conhecidos são as únicas coisas que podemos fazer chegar rapidamente aos pacientes, e há muitos deles sendo testados no momento. Portanto, no próximo mês, devemos saber mais sobre quais deles podem ajudar, mas nenhum deles será a cura, tenho certeza disso, infelizmente.

Para colocar o coronavírus na mesma categoria da hepatite C, em que temos medicamentos que curam a doença, precisaríamos de medicamentos completamente novos, o que levará anos. A vacina é uma esperança muito melhor. Tenho esperança de que possamos desenvolver uma, embora isso exija uma quantidade enorme de dinheiro e esforço.

Entre as substâncias mais comentadas estão a cloroquina e a hidroxicloroquina. Por que há tanto otimismo com essas substâncias?
Porque houve relatos de que funcionam inesperadamente bem, e as pessoas querem muito ouvir que existe um remédio. Infelizmente, esses resultados foram muito preliminares e pouco controlados. À medida que são realizados testes mais controlados, parece cada vez mais que esses medicamentos não são eficazes. Há mais testes para hidroxicloroquina, mas não estou otimista.

Qual a informação mais atualizada sobre o uso da cloroquina e a hidroxicloroquina contra a Covid-19?  Mais três estudos foram relatados na semana passada, dois da China e um da França. Nenhum deles mostrou qualquer benefício da hidroxicloroquina.

O sr. tem sido criticado por falar da ausência de resultados da cloroquina e da hidroxicloroquina?
Recebi muitas mensagens raivosas dizendo que quero que as pessoas morram, que estou “do lado do vírus”, que estou “deliberadamente suprimindo os fatos sobre essa droga maravilhosa” etc. Mas tento relatar os fatos como os vejo, não o que as pessoas desejam que seja verdade, o que ouviram como rumores ou o que seus políticos ou apresentadores de TV favoritos acreditam. Temos que nos ater aos fatos, aos dados e executar os melhores experimentos que pudermos o mais rápido possível. Caso contrário, poderíamos apenas correr agitando os braços e gritando.

A defesa da cloroquina e da hidroxicloroquina pelos presidentes dos EUA e do Brasil pode pressionar hospitais, médicos e os governos a aprovarem o uso da substância? 
Acredito que sim. Uma das piores coisas sobre esse tipo de liderança é que ela faz com que outras pessoas queiram agradar ao chefe, dizer ao líder o que ele quer ouvir e serem vistas em público agindo em nome do líder. As pessoas se envolvem nesse comportamento de puxa-saco a fim de parecer melhor aos olhos do chefe. Mas o vírus não se importa com nada disso.

Como avalia a defesa de dois líderes e demais políticos de uma substância que ainda não teve sua eficácia cientificamente comprovada? 
É irresponsável e nociva.

Algumas dessas pessoas não entendem bem como a medicina e a ciência funcionam, e algumas honestamente pensam que estão fazendo o bem dando esperança às pessoas. Mas dar às pessoas falsas esperanças é cruel.

O Brasil autoriza o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina em casos graves, e os EUA têm uma regulação mais nebulosa. Há casos para se usar a substância?  
Não sou médico. Mas, pela minha experiência em pesquisa de desenvolvimento de medicamentos, não vejo uso nenhum para esses medicamentos na epidemia.

 

Derek Lowe, 58
Bacharel em química pelo Hendrix College e doutor em química orgânica pela Universidade Duke. Colunista no site da Science Translational Medicine, um dos braços da revista Science

Fonte: Folha de São Paulo