Nostalgia do Império é fantasia reacionária do bolsonarismo, dizem historiadores

A história é uma arena dos conflitos sociais. Nela adentram apaixonadamente governos, partidos e movimentos, digladiando-se com virulência em torno de eventos e processos ocorridos décadas e séculos atrás. O que impulsiona esses embates não é, porém, o passado, mas o presente.

Longe de ser mera curiosidade, a visão de determinado grupo sobre o passado é um elemento central de seu projeto político. Logo, o estudo da imaginação histórica de uma ideologia é uma maneira privilegiada de filtrar as impurezas visíveis no noticiário cotidiano até alcançar o seu cerne.

O tesão bolsonarista pela ditadura militar de 1964 e seus torturadores já foi orgulhosamente exposto em cadeia nacional. Sobre esse fetiche não há muito mais o que dizer. Baseia-se em um negacionismo absoluto dos estudos sobre o período e é reflexo de um anti-intelectualismo generalizado e ressentido, que se manifesta também na negação da emergência climática, da pandemia do novo coronavírus e do racismo estrutural que caracteriza a sociedade brasileira. Menos discutida, mas mais interessante é a aproximação entre bolsonarismo e monarquismo.

Trata-se da mais recente manifestação da “nostalgia imperial” analisada por Ricardo Salles (o historiador, não o ministro) em obra genial. O Império, e mais especificamente o Segundo Reinado (1840-1889), é representado como um período de unidade nacional, afirmação internacional, estabilidade política, retidão moral e progresso econômico, tendo dom Pedro 2º (1825-1891) como seu epítome.

É uma visão que parte dos fracassos da República para erigir um contraexemplo idealizado, um que nos diz mais das aspirações conservadoras que sobre o que realmente ocorreu. Encontramos esse discurso já na Primeira República, mas é a partir da década de 1930 que ele se associa ao que há de mais conservador na política nacional.

Quando não ignorados, todos os aspectos negativos são colocados na conta do espírito do tempo e dos políticos civis, enquanto os avanços são uniformemente atribuídos à Coroa. Contra as insuficiências dos mandatários eleitos, apresenta-se a fantasia de um monarca sábio, em uma ânsia quase infantil por um pai bondoso. Seu efeito é perverso, colocando todo o protagonismo da história nas mãos dos governantes e minimizando a relevância da mobilização social —como se vê, por exemplo, na exaltação da “redentora” princesa Isabel em detrimento de Zumbi dos Palmares.

A base fundamental do Império foi, porém, a escravidão. Como há muito enfatizou Luiz Felipe de Alencastro, a defesa do tráfico atlântico de africanos escravizados foi central tanto na manutenção da unidade na Independência quanto no Regresso Conservador, que reprimiu violentamente as rebeliões populares do período regencial (1831-40) e consolidou o Estado centralizado. A ordem tão elogiada pelos monarquistas foi obtida e mantida às custas de rios de sangue.

A preservação da escravidão por tanto tempo quanto possível contra os ventos adversos do cenário internacional, das condições materiais e da pressão popular foi a razão de ser dos governos imperiais até o final da década de 1880, quando não foi mais possível resistir ao tsunami abolicionista. Incapaz de capitalizar o apoio popular advindo do 13 de maio após uma vida de simbiose com o cativeiro, a monarquia caiu em 1889.

O horror da escravização de milhões de seres humanos deveria ser suficiente para impedir qualquer tentativa de valorização do Império, mas sua folha corrida é muito mais longa. Os projetos imperiais de modernização conservadora buscavam preservar o latifúndio e a agricultura de exportação. O resultado foi um crescimento econômico pífio que ampliou as desigualdades sociais e regionais e deixou o Brasil ainda mais para trás, em comparação com as economias avançadas.

 

Thiago Krause

Professor de história do Brasil colonial na Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro)

Paulo Pachá

Professor de história medieval na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

 

 

Fonte: Folha de São Paulo