O paradoxo de Deltan – José Henrique Mariante

Fugiu das redes sociais? Nem entrou? Saiba que sua ausência não é sentida. Facebook, Google, Instagram e outros estão lá por você, mesmo que o você físico ainda não tenha decidido criar o você digital. 

Algoritmos fazem um trabalho sem fim reproduzindo e estimulando nossas preferências e conexões sociais. Sabemos que seremos bombardeados com anúncios de carros quando procuramos um para comprar e recebemos com naturalidade indicações de amizade. O curioso é que, se alguém estiver ausente na sequência infinita de conexões, ainda assim a máquina não o ignora.

Para aumentar a eficiência do processo e aproximar o quanto possível as redes da realidade que reproduzem, empresas de tecnologia criam perfis do ausente enquanto ele não o faz por conta própria. Com dados que, incauto, fornece sem parar.

Não tenho Facebook, mas tenho celular e uso WhatsApp, com contatos que, em alguma medida, estão no Facebook. O Android está ligado a um Gmail, que contém outra lista de contatos, outros tantos pontos de aderência. Continuo não tendo Facebook, mas ele me tem, organizado ao lado dos meus contatos, lapidado pelas interações que faço, das interações que eles fazem em outras redes, das que fazemos em outros sistemas e assim por diante. 

Quem sabe um dia a transparência chegue a tal nível que a empresa permita que eu conheça o meu próprio perfil. Talvez eu não me reconheça, como Deltan Dallagnol disse não se reconhecer nos diálogos tornados públicos na semana passada. Afinal, a faceta rentista não encaixa no bom-mocismo do promotor que combate a grande corrupção. 

Deltan edulcorou sua existência nas redes e está indignado (em pânico) com a lufada de realidade. Aconteceria com qualquer um. Somos mais bonitos, fortes e viajados nas redes para parecer descolados.

E, os tempos mostram, pretensamente mais politizados para disfarçar a alienação.

Olhamos o traseiro no espelho, e ele está na janela.

José Henrique Mariante

Engenheiro e jornalista, é secretário-assistente de Redação da Folha, onde trabalha desde 1992

 

Fonte: Folha de São Paulo