O que pensam os eleitores de Ciro Gomes

Já no fim de sua sabatina no “Roda Viva”, em maio, Ciro Gomes elegeu uma música predileta, “Carinhoso”, e um lema do coração, “há que endurecer, mas sem perder a ternura, jamais”, palavras atribuídas a Che Guevara.

Tanta ternura casa com o estilo “more presidential” (mais presidenciável) que o pré-candidato do PDT à Presidência diz querer ter, para deixar de uma vez por todas a fama de candidato espoleta –foi o que afirmou, por exemplo, após pedir desculpas por chamar Michel Temer de “conspirador filho da puta” num evento da PUC em 2016.

Mas é mesmo do Ciro sem papas na língua que gostam 11 de seus eleitores convidados pela Folha a discutir os prós e contras do seu nome favorito na eleição de outubro.

O universitário André Suzart, 24, resume o sentimento do grupo: “A maioria [dos políticos] tem aquele jeito de falar contido –um lorde britânico, como diria Ciro. Ele falando da maneira dele traz uma autenticidade, e o momento talvez peça um pouco algo diferente”.

O momento, dizem, pede também um nome distinto daquele que monopolizou a esquerda nas últimas duas décadas: Lula, seja como o candidato do PT por quatro pleitos consecutivos, seja como o grande patrocinador da candidatura de Dilma Rousseff.

Nesse ponto o grupo é taxativo: o tempo de Lula passou, e seu partido precisa entender isso e apoiar um candidato progressista com chances reais de vitória. Daí entra Ciro na história, o mais bem posicionado dos concorrentes à esquerda nas pesquisas.

“Falta humildade ao PT. Concordo com Ciro, tem que respeitar o PT, foi um baque a prisão [do ex-presidente], um golpe [o impeachment de Dilma], mas o PT tem que reconhecer que não tem condições de lançar um candidato”, afirma a caçula da mesa, a estudante Marina Luzzi, 18.

A decana da turma é a única a admitir que, se o PT conseguir lançar um nome forte, é ele quem terá seu voto, e não o ex-ministro de Lula. “Não vou mentir, sou petista. Mas também sou coerente, e a gente sabe que não tem candidato”, diz a diarista Maria de Lourdes do Nascimento, 56.

A professora Fayga Oliveira, 32, já dá a letra: “Como boa mineira, sou desconfiada”. Até aqui ela, que se achava “uma sabe-tudo em política”, vinha votando em petistas. Começou a dar mais ouvidos à oratória de Ciro. “Percebi que minha relação com o PT era instrumental. As candidaturas de Dilma e Lula nunca se davam ao trabalho de explicar nada [de suas propostas]. Era fácil, bem fácil votar no PT porque era se contrapor ao PSDB.”