O rádio foi uma “escola” – I – José Jorge Andrade Damasceno

Com a paciência dos leitores e a vênia daqueles mais sapientes e mais conhecedores acerca do tema, este escrevente gostaria de discorrer sobre o mais importante e eficiente instrumento comunicacional já imaginado e desenvolvido pelo homem moderno: o rádio.

Pode-se dizer, grosso modo e apenas como um dentre muitos outros exemplos que poderiam ser evocados, diante do extremo esforço exigido pelas circunstâncias que envolveram tropas e populações civis engolfadas na conflagração de 1939 a 1945, que o rádio enquanto meio de comunicação, desempenhou importantíssimo papel no desdobrar da Segunda Grande Guerra mundial, quando os principais chefes de Estado conflagrados se comunicam com os seus respectivos campos de liderança, fomentando seus liderados para a luta e/ou para a resistência.

Adolf Hitler, Winston Churchill, Charles De Gaulle, Josef Stalin Franklin Delano Roosevelt tiveram o rádio como palanque privilegiado para as suas conclamações de incentivo, apoio e/ou encorajamento, dirigidas as populações alemãs, inglesas, francesas, soviéticas e norte americanas, no sentido de manterem-se firmes em seus propósitos naqueles momentos cruciais de cada um dos países por eles representados.

Portanto, crê-se consensual a formulação que propugna ser o rádio o meio de comunicação mais próximo das gentes e de maior poder de penetração nos seus recintos e mentes, o que oportunizava aos indivíduos, grupos de indivíduos e instituições potencializar o uso daquele versátil e ágil instrumento de comunicação direta com as pessoas, mesmo aquelas desprovidas do domínio do mundo hermético das letras, no sentido de atingir determinados objetivos, quaisquer que fossem: políticos, comerciais, eleitorais, culturais, educativos e mesmo religiosos. Saliente-se, no entanto, que tais utilizações foram e são feitas muitas vezes de forma abusiva, o que de maneira alguma invalida o instrumento e o seu poder de alcançar lugares e seres: os mais distantes e os mais simples.

Dada a largueza e a importância do tema, ele será apresentado em várias porções para melhor apreciação dos leitores. Boa parte dos escritos terá a memória e a experiência de ouvinte que tem este autor, visto ter tido a vida inteira relacionada com a escuta de rádio de amplitude modulada, AM, que até os anos iniciais da década de 1970 eram identificadas como sendo “emissoras de ondas médias”. Também se lançará mão de entrevistas de antigos locutores – já de domínio público -, além de textos outros que apenas darão suporte ao aflorar das “memórias” deste escrevinhador.

A grande diversidade de emissoras captadas e ouvidas por este escrevente não caberia em um texto que se pretende discursivo, mas poder-se-ia citar algumas delas: Rádio Emissora de Alagoinhas; Rádios Carioca e Sociedade de Feira de Santana; Rádio Sociedade da Bahia; Rádio Excelsior da Bahia; Rádio Cultura da Bahia (onde França Teixeira apresentava a Resenha do Meio dia e Mário Freitas ensaiava os primeiros passos na crônica esportiva de Salvador, sendo muito viva na memória deste escrevente, como se suas vozes ainda pudessem ser ouvidas, no momento mesmo em que são escritas estas linhas); Rádio Jornal do Brasil; Rádios Tupi, Globo e Rádio Nacional do Rio de Janeiro; Rádio Nacional, depois Globo, de  São Paulo; Rádio Gaúcha de Porto Alegre; Rádio Clube de Pernambuco (que reivindicava ser a emissora mais antiga do País – (1919), contrapondo-se ao desígnio oficial que rezava ser a Rádio Roquette Pinto (1923) a detentora de tal láurea); Rádio Clube de Salvador (que foi ouvida por este autor, ainda em sua fase experimental, nas férias juninas de 1975); Rádio Tupi de São Paulo; Rádio Inconfidência de Minas; Rádio Record e Rádio Bandeirantes de São Paulo; Ceará Rádio Clube, Rádio Dragão do Mar, Rádio Assunção Cearense e Rádio Verdes Mares, todas de Fortaleza; Difusora Mossoró, Rio Grande do Norte; Difusora de Cajazeiras, Paraíba; Rádio Tabajara de João Pessoa, Paraíba; Rádio Poti de Natal; Rádio Mundial do Rio de Janeiro (emissora por meio da qual este escrevente ouviu pela primeira vez “Cálice” e “Geni e o Zepelim” na inconfundível voz de Chico Buarque de Holanda, antes mesmo que fossem tocadas nas emissoras baianas).

A esta já longa lista de emissoras de rádio ouvidas no agreste baiano, este escrevedor não pode deixar de agregar a rádio Transmundial ouvida na frequência de 800 khz, transmitindo em ondas médias desde Bonaire, Antilhas Holandesas, na região do Caribe. Com transmissões em português, espanhol e alemão, podia ser captada entre as 04 e 06 da manhã com excelente qualidade de recepção, exceto nos seus quinze minutos finais, por razões meteorológicas inerentes à propagação hertziana. Música, leitura e programação evangélica protestante era a sua marca e, sobretudo, aquela capacidade de atingir espaços geográficos distantes e difíceis para quaisquer outras instituições com atividades e objetivos congêneres.

Além destas, foram ouvidas  inúmeras transmissões em ondas curtas como as da inglesa BBC de Londres (em Português para o Brasil, em Português para a África e em francês igualmente para a África), com o seu tão inconfundível quanto inesquecível Big Bang marcando o início das transmissões de uma das mais prestigiosas emissoras irradiadoras de serviços internacionais de notícias; Voz da América em português para o Brasil e em francês e português para a África, desde Washington; Rádio Suíça internacional, desde Berna; Rádio Central de Moscou e Rádio Moscou, desde a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas; Rádio Nederland, desde Amsterdã, na Holanda; Rádio Deutsche Welle, desde Bonn, na República Federal da Alemanha; Rádio Havana Cuba; Rádio KGEI – La voz de La Amistad, desde San Francisco, Califórnia; Rádio Praga – antiga Checoslováquia; Rádio França Internacional, desde Paris  – em francês e em português; entre outras que se fossem citadas, tornariam o texto enfadonho e excessivamente maçante.

A partir daquelas audições radiofônicas, pôde-se construir o caldo cultural que propiciou a este autor se assenhorear de um vasto conjunto de formulações multifacetadas que lhe permitia construir uma percepção de mundo lastreado no jogo complexo da “Guerra Fria”, das “distensões”, das “ditaduras (sobretudo as da “cortina de ferro” e as vigentes no sul do continente americano), que moldavam a programação a ser difundida e que marcavam indelevelmente as informações, as opiniões e as ideias que eram transmitidas através das ondas hertzianas que não encontravam barreiras ou fronteiras para chegar aos confins das casas dos ouvintes, a não ser aquelas interpostas pelos ruídos e interferências natural e/ou artificialmente inseridas no contexto da recepção das emissoras de ondas curtas.

As transmissões com horários e frequências previamente determinadas, eram aguardadas com ansiedade por aqueles que as apreciavam, visto que determinadas peças noticiosas apenas poderiam ser exibidas por aquelas emissoras que se encontravam fora do alcance implacável dos longos tentáculos da censura e das ardilosas mãos dos censores.

Bom, mas neste ponto o texto já se fez longo e já avançou de mais e é preciso recuar um pouco no tempo. Mas isto só se fará na próxima abordagem, quando se pretende desenvolver a ideia de rádio como uma escola.

José Jorge Andrade Damasceno é doutor em História Social (Universidade Federal Fluminense) e professor da Universidade do Estado da Bahia em Alagoinhas 

Artigo publicado originalmente no site Alagoinhas Hoje em 8 de julho de 2017