‘Os bancos não vão fazer, na guerra, a função que não faziam na paz’, diz economista

O economista José Roberto Afonso, professor do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), é pessimista em relação à retomada da economia. Para ele, não há possibilidade de se pensar em recuperação da economia no curto prazo. Além disso, a retomada não vai ocorrer por meio do crédito tradicional dos bancos, que têm aversão ao risco em cenários normais. “Os bancos não vão fazer, na guerra, a função que não faziam na paz.”

A crise já começa a deixar um rastro de inadimplência no País. Quais os efeitos desse movimento?

A primeira e mais importante inadimplência é dos impostos. As empresas devem, não negam, mas não recolhem. É uma forma rápida e eficiente de ter acesso a crédito – às vezes, mesmo com juros de mora e multa – mais barato comparado ao do banco quando se consegue. A inadimplência com as instituições financeiras cresce quando não se tem perspectiva de tomar novo crédito com o mesmo banco. Se os dois casos acima não resolveram, cresce inadimplência com fornecedores e até com funcionários. É uma cadeia de inadimplência que ameaça a economia tanto quanto a queda de vendas.

Esse movimento já começou?

Pelo relato de autoridades fazendárias e do empresariado, já foi disparada essa cadeia de inadimplência. Faltam evidências empíricas, mas faz todo sentido.

Hoje há ambiente para conseguir crédito novo?

Crédito novo seria para pagar débitos velhos e para cobrir custos fixos durante a parada da economia. Esse crédito tem de ser ofertado por linhas do governo, como no resto do mundo. Mas não está funcionando, pelo que tem sido divulgado.

Isso pode comprometer a retomada?

Não há menor possibilidade de retomada, no curto prazo, para a grande maioria das atividades e das empresas. O que está em jogo é sobrevivência, ou seja, não morrer. O crédito agora é para isso. Longe de pensar em retomar. Precisamos mudar a estratégia. O sistema bancário tem aversão a risco no meio de uma recessão, que está para virar depressão, em qualquer lugar do mundo. O brasileiro, que já em termos de paz e de crescimento, também era muito avesso a risco, emprestava pouco. Ele não fazer agora, na guerra, a função que não fazia na paz.

E o que o seria mudar a estratégia?

É preciso inovar e desenhar outros instrumentos de crédito que passem pelo mercado de capitais e por outros veículos, como os novos meios de pagamento – as chamadas maquininhas. Quem as opera conhece mais as empresas e os trabalhadores independentes do que qualquer banco, público ou privado, no País, quando se trata de micro e pequenas empresas. A inadimplência subirá e não será resolvida com empréstimos bancários tradicionais, mesmo que sejam ofertados com recursos públicos.

Mas como seria isso?

Cias aéreas poderiam emitir título de crédito conversível em passagens a serem usadas no futuro, como já fazem com agências de turismo. Por que empresas de autopeças não poderiam emitir títulos privados dando como garantia as encomendas feitas pelas montadoras de automóveis?

Fonte: O Estado de São Paulo