Para o governo, pressão ambiental faz parte de jogo geopolítico internacional

Há um convencimento no Palácio do Planalto de que a pressão externa sobre o Brasil por conta da crise ambiental da Amazônia é baseada em interesses comerciais e políticos. A avaliação é de que o presidente da França, Emmanuel Macron, quis aproveitar o aumento das queimadas e do desmatamento na Amazônia para recuperar apoio interno às custas do Brasil.

Mas o risco de sofrer sanções comerciais dos países do G-7 e ver ameaçados acordos comerciais importantes para o agronegócio fizeram com que o governo decidisse ser pragmático e tomasse atitudes visíveis para amenizar as cobranças internacionais por maior proteção ambiental. Temendo que o movimento fosse insuficiente para conter a pressão, o governo decidiu buscar apoio diplomático de aliados de peso, como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Bolsonaro conversou com Trump na sexta-feira, 23, e conseguiu que ele fizesse uma manifestação pública via Twitter a favor do Brasil.

Mesmo admitindo internamente que subestimou a repercussão internacional da crise ambiental da Amazônia, o governo está convicto de que a briga por mercados impulsionou o movimento contra o Brasil. Não apenas a França, mas outros países que concorrem diretamente com o agronegócio brasileiro e em outras áreas comerciais também aproveitaram a reação forte do governo francês para criticarem abertamente o Brasil por causa da Amazônia. Foi o caso da Irlanda e da Finlândia, por exemplo. Líderes da Grã-Bretanha e do Canadá também criticaram a política ambiental e fizeram com que o governo procurasse a ajuda norte-americana para reduzir o peso das críticas.

“O Brasil precisa baixar essa temperatura. A Amazônia é importante. O Brasil sabe disso e o Brasil cuida da Amazônia. Se o Brasil precisar de ajuda, ele vai pedir”, diz a ministra da Agricultura, Tereza Cristina.

Uma das principais lideranças ruralistas do País, a ministra fez a ponte com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, seu colega de DEM e responsável por sua filiação ao partido, em busca de soluções políticas que ajudassem a blindar o agronegócio na crise. Maia concorda que a reação do governo francês pareceu exagerada contra o Brasil. Mas acha que o governo precisa tomar ações mais concretas na proteção ambiental e reduzir o discurso ideológico na discussão.

Maia se comprometeu com a ministra e vai liderar uma série de ações legislativas para mostrar que o agronegócio brasileiro não é inimigo do meio ambiente. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (AP), colega de partido de Maia e Tereza, também se engajou nessa iniciativa. Na prática, serão criadas comissões para discutir o problema ambiental, mas Maia fará também um road show pelos países da região amazônica e conversará com embaixadores dos países do G-7 para defender as práticas do agronegócio brasileiro.

Na prática, o governo espera que o envio de forças para atuar nos Estados da Amazônia Legal, deflagrado no fim da semana passada, mostre claramente a intenção do governo em combater as queimadas. Os governadores do Norte se reunirão com Jair Bolsonaro nesta terça, 27, para alinhar essas ações. Mas o presidente sabe que precisará reforçar sua atuação diplomática nos próximos dias, dependendo cada vez mais do apoio norte-americano nessa área. No Congresso, espera pela gritaria da oposição, mas acha que a blindagem externa do agronegócio — setor que o apoiou maciçamente nas eleições, mas que começa a se assustar com a exacerbada retórica e os riscos de retaliações de compradores dos produtos brasileiros — é muito mais prioritária do que rebater os partidos de esquerda.