Paulo Guedes, o voyeur do AI-5 – Roberto Dias

Em dezembro de 1968, Paulo Guedes morava em Belo Horizonte, onde cursava economia na UFMG. Era um estudante avesso à política e bom de bola, segundo perfil traçado por seus colegas ao jornal Estado de Minas.

O Guedes de 2019, pelo que vai se percebendo agora, adoraria que o Guedes de 1968 estivesse não nas alterosas e sim nas Laranjeiras, espiando 17 engravatados cometerem um ato de bestialidade.

Seu fetiche com o AI-5 seria bizarro mesmo se fosse possível observá-lo sem a lente moral.

O ministro usa como pretexto uma disputa nas ruas que até aqui inexiste. A reforma da Previdência que ele articulou mudou a vida de muita gente sem que seus opositores conseguissem se fazer notar. Lula, o homem que tira o sono de Guedes, era também a estrela de um evento que o PT queria armar na praça da República, em São Paulo. Um comício que se desmanchou supostamente por causa de uma tempestade que nem chegou a ocorrer.

A sensibilidade política do superministro arrepia. O AI-5 fechou o mesmo Congresso para o qual sua equipe acaba de mandar um pacote de medidas importantes e de aprovação custosa.

O Guedes de 1968 se chamava Delfim Netto. “Naquele instante, com o que se conhecia do mundo”, Delfim diz que assinaria o AI-5 novamente. Tinham lhe prometido eleições, explica. Examinados seus argumentos com uma lente de aumento moral, acaba-se por enxergar o óbvio com nitidez. “Dou risada quando dizem que eram democratas naquela época. Não tinha um sujeito que era democrata”, afirmou ele ao Valor.

Como se sabe, cada cabeça carrega sua própria sentença. Guedes, ao contrário de Delfim, faz parte de um governo que foi eleito democraticamente. Tal como Delfim dizia estar, Guedes poderia se afirmar sempre à espera de democracia. Prefere, porém, falar sobre AI-5. Em vez de se assanhar com fantasmas, faria bem em espiar um livro de história.

Roberto Dias

Secretário de Redação da Folha de São Paulo