Pré-distribuir habilidades é melhor jeito de reduzir desigualdade, diz Nobel de Economia

Políticas para a primeira infância podem ser o antídoto contra a perpetuação de desigualdades de uma geração para outra. Isso porque a tendência é que famílias estruturadas invistam na educação dos filhos desde o berço, enquanto as mais vulneráveis não conseguiriam fazê-lo, consumidas pela batalha da sobrevivência diária.

O economista James Heckman, 75, já havia sido consagrado com um prêmio Nobel quando descobriu a relação entre a desigualdade e o estímulo a crianças de zero a cinco anos de idade.

Sua pesquisa acompanhou indivíduos expostos a estímulos no início da vida e descobriu que, no longo prazo, eles obtiveram melhor desempenho escolar, salários mais altos, melhor saúde e menor envolvimento com crimes. Tais benefícios, constatou, se estenderam à geração seguinte.

“São as habilidades que farão com que alguém deixe de ser meramente uma criatura de seu berço desprivilegiado”, disse Heckman à Folha no Centro de Economia do Desenvolvimento Humano da Universidade de Chicago (EUA), que dirige. “Quanto mais as pessoas adquirirem competências, menor tende a ser a desigualdade.”

A partir da ideia de que é possível aprender habilidades que garantirão melhores escolhas, mais trabalho e mais renda, Heckman defende como melhor estratégia de redução da desigualdade a pré-distribuição de competências, no lugar da redistribuição de renda.

Com isso, ele refuta cânones do pensamento político ocidental à esquerda e à direita. Assim, de um lado, falar em classes sociais é “algo que pertence ao reino da eugenia”; de outro, a livre competição defendida pelos ultraliberais só é possível com igualdade de oportunidades, algo atingível apenas por meio de políticas públicas.

Heckman defende também que a pré-distribuição tenha como base as famílias, que passam por mudanças estruturais profundas nas sociedades contemporâneas e, por isso, precisam de apoio.

Para reduzir desigualdades, pré-distribuição é melhor que redistribuição? Antes de discutirmos a redistribuição de dinheiro de um adulto para outro, precisamos pensar em prover crianças com as habilidades básicas para o mercado de trabalho no futuro.

Nessa fase, do nascimento até os cinco anos, as crianças são muito maleáveis, aprendem com grande facilidade e podem desenvolver uma base sobre a qual aprenderão todas as proficiências que a vida vai lhes oferecer. E isso cria vantagens diante das oportunidades que a vida ou mesmo a escola proporcionam.

É preciso preparação para a vida escolar? Sim. Quando falamos em adquirir destrezas, não basta mandar as crianças para a escola. É preciso que estejam preparadas para receber o conhecimento, equipadas com habilidades cognitivas e socioemocionais com as quais possam enfrentar desafios e interagir.

Se uma criança recebe estímulos aos três anos, ela será mais concentrada nas aulas no ensino médio, portanto mais inclinada a se beneficiar das oportunidades que a vida vai lhe oferecer.

 

Fonte: Folha de São Paulo