Roteiro pronto para o golpe militar – Marcelo Coelho

Celso de Barros tem razão. “Não há mais dúvida de que o plano dos bolsonaristas é dar um golpe”, escreveu ele na Folha desta segunda-feira (17).

Seu artigo nem mesmo precisava fazer referência ao vídeo que Bolsonaro gravou no seu leito hospitalar, e que confirma as piores hipóteses.

Ali, o candidato do PSL lança suspeitas de fraude sobre o voto eletrônico e põe em dúvida a isenção dos institutos de pesquisa. Suspeita de um arranjo entre Globo e Datafolha; “com todo o respeito”, critica a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, e o Supremo Tribunal Federal —que barraram suas iniciativas em favor do voto impresso.

Com a voz enfraquecida, mas até carinhosa em sua rouquidão, adverte sobre a eventualidade de uma vitória petista, e faz uma pergunta de extrema gravidade.

“Meus amigos das Forças Armadas, quem será o ministro da Defesa de vocês? Quem será o nosso ministro?”

Não é preciso somar dois mais dois para perceber, nessa fala de quase 20 minutos, o roteiro completo para um golpe militar. “Raiz, e não Nutella”, como diz Celso de Barros.

Ou Bolsonaro ganha, ou será fraude. Se as pesquisas disserem que ele perde, são fraude também. Se a fraude prevalecer, Haddad irá tirar Lula da cadeia, e levará o país para o caminho da Venezuela… ou de outra “ditadura”, como Cuba.

Como em 1964, para “salvar” o país de uma “ditadura comunista”, a única saída será uma ação dos “nossos amigos” do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Os quais, no mundo bolsonarista, nunca instituíram nenhuma ditadura.

Sim, fecharam o Congresso, censuraram a imprensa, suspenderam o habeas corpus, cassaram ministros do Supremo Tribunal Federal, prenderam gente sem mandado judicial, torturaram e mataram.

Só que “não era ditadura”, sustenta Bolsonaro. Seu raciocínio é risível: o próprio PT surgiu em 1980, e nunca se viu ditadura permitindo a criação de partidos políticos. Nem o golpe de 1964 foi golpe, para o candidato: foi o próprio Congresso quem elegeu Castello Branco (com os tanques, claro, mas isso é detalhe).

O vice de Bolsonaro, enquanto isso, já afirmara que, em caso de baderna, anarquia ou convulsão, as Forças Armadas têm o dever de intervir.

Outro general, que aparentemente não faz campanha para nenhum candidato, coloca em dúvida o futuro da democracia. O atentado a Bolsonaro, disse o comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas, “confirma que estamos construindo dificuldade para que o novo governo tenha uma estabilidade, para a sua governabilidade, e podendo até mesmo ter sua legitimidade questionada.”

A frase, em entrevista ao Estado de S. Paulo, foi uma constatação de fato. Mas quando um militar declara uma coisa dessas, quem está falando não é um analista político; até a neutralidade, nesse caso, é perigosa. Sem estabilidade, sem governabilidade, sem legitimidade, como ficamos?

Se quisesse, o general Villas Bôas poderia dizer o contrário: “Tenho confiança de que as eleições se darão normalmente, e que o clima de intolerância e radicalismo não prosseguirá num novo governo”. Já haveria sombras nesse pronunciamento; seria algo como uma ameaça. Muito pior foi ter dito o contrário disso.

A questão, a meu ver, não é nem Bolsonaro, nem seu vice, nem os militares. A distante eventualidade de uma vitória de Fernando Haddad criará golpistas em toda parte. Nem toda a fisiologia do mundo fará com que o centrão e a direita se animem a frustrar seus eleitores.

O mundo de Alckmin, de Meirelles, de Amoêdo, do PP, do PTB e do DEM lutou ativamente pelo impeachment de Dilma. Aquilo foi café pequeno diante do que se prepara.

Quanto ao PT, vive numa realidade à parte, em que Dilma nunca se aliou a Temer, em que Lula nunca se encontrou com empreiteiros, em que Haddad vai ser um sucesso.

O mito Lula fica a serviço dos interesses da oligarquia partidária, que não admitiu nenhuma aliança estratégica para derrotar, num consenso democrático, a ameaça da extrema direita.

Já vi esse filme. Não me convencem os argumentos de que o Brasil é uma sociedade “complexa demais” para viver um golpe militar.

A Alemanha de 1933 era bem complexa também —excessivamente complexa, aliás. Justamente aí é que os toscos, os imbecis e os trogloditas se dão bem.

Marcelo Coelho: Membro do Conselho Editorial da Folha, autor dos romances “Jantando com Melvin” e “Noturno”. É mestre em sociologia pela USP.
Fonte: Folha de São Paulo