Sem ela, há o silêncio do totalitarismo – Roberto DaMatta

Os dicionários, que são tanto os “pais dos burros” quanto a fonte dos significados do idioma, dizem que balbúrdia é um estilo de comunicação fundado no vozerio, na algazarra, na confusão e na desordem. O ministro da Educação carimbou as universidades como agentes da balbúrdia e os estudantes planejam revidar com uma balbúrdia programada, que a transforma numa manifestação que eles têm o direito de fazer se o sistema é mesmo democrático e igualitário. 

Não se pode dar uma chinelada na igualdade e no direito a dizer o que se pensa, embora o bom senso deva estar do lado do controle dos abusos da má-fé. Os estudante realizam um protesto. Mas vale reiterar que o confronto é a alma de um regime democrático. 

Cortar verbas em vez de propor um plano para ampliar os recursos de um sistema universitário carente e gratuito é ampliar a balbúrdia. Balbúrdia que se soma a de constatar que o ministro da atividade que nos torna humanos e cidadãos do mundo – a educação, que nos tira do balbucio infantil e preconceituoso – tenha lido o sistema universitário como de privilégio e confundido a liberdade, talvez exagerada, com um mero barulho. Se exagero existe – e eu estou seguro de que nós não entendemos o que é uma universidade, pois ainda repetimos que “quem sabe, faz; e quem não sabe, ensina” -, ele deveria ter sido mais abrangente. Balbuciando, ele seria mais efetivo. 

Ademais e acima de tudo, vale lembrar que a tal Democracia, tão falada mas tão mal entendida e rejeitada, tem como eixo precisamente a balbúrdia e o vozerio. Nela, todos podem falar e devem ser ouvidos. Democracia, para quem ainda não sabe, é o regime das balbúrdias, tumultos e das (con)fusões. O estilo de vida que ela promove é o da fusão relativa de contrários que governam com oposição. 

A perfeição das unanimidades é, como dizia Nelson Rodrigues, sempre burra. Em política, ela vira ditadura e passa a ser a expressão cabal do autoritarismo que, no Brasil, ainda deixa saudade e, pior que isso, subtrai a igualdade de criticar. O lado mais importante das democracias é justamente o outro. Sem balbúrdia, há o silêncio tumular do totalitarismo.

Doutor em Antropologia, escritor, professor vistante em universidades dos EUA e colunista de O Estado de São Paulo