Teoria das baratas de Bolsonaro realça diferença entre civilização e barbárie – Ranier Bragon

Um policial de folga que tenha o terrível azar de ser descoberto por bandidos durante um assalto, e que esteja rendido ou sem condições de reação, tem grandes chances de acabar torturado e assassinado.

Logo, soa plausível a muita gente que criminosos dominados sejam mortos. Não lhes ocorre que são nessas situações que a civilização se distingue claramente da barbárie, o certo se contrapõe ao errado.

É compreensível a alguém que se depare com um crime atroz ter ganas mortais contra o agressor. Jamais o Estado, sob pena de se igualar aos facínoras. Ao puni-lo de acordo com a lei, demonstra a superioridade e a evolução da civilização através dos séculos. Não se defende —parafraseando o poeta Jair Bolsonaro— que a polícia enfrente o crime soltando pombinhas brancas. É obviamente lícito que, como recurso capital, policiais matem agressores em combate ou que representem iminente ameaça à vida de quem quer que seja.

O problema é que parte dos trogloditas que fazem arminhas com as mãos quer é execução pura e simples. Bala na nuca. “Os caras vão morrer na rua igual barata, pô, e tem que ser assim”, disse Bolsonaro ao defender, novamente, o vale tudo policial.

É de pensamentos assim que surgiram as milícias, os esquadrões da morte —grupos elogiados por Bolsonaro em sua carreira— e toda sorte de quadrilhas armadas e fardadas a serviço de nada mais nada menos que ela mesmo, a bandidagem.

Criminosos já morrem como baratas em ruas e presídios, em números crescentes, e alguém tem se sentido mais confiante para andar pelas ruas das metrópoles do país?

Ideias e ações que destoem da sua primária concepção de segurança pública devem acordar na cabeça presidencial o mesmo macaquinho tocador de pratos que habita o cérebro de Homer Simpson. Em momentos assim, a falta de gente como Clóvis Rossi fica mais evidente. “Desrespeito à vida é sempre injustificável, sob pena de se implantar a lei de talião e, de olho por olho em olho por olho, acabarmos todos cegos.”

Ranier Bragon

Repórter especial em Brasília, está na Folha desde 1998. Foi correspondente em Belo Horizonte e São Luís e editor-adjunto de Poder.