Waldir Pires acreditava na política e em sua força transformadora da sociedade – Maurílio Lopes Fontes

Waldir Pires morreu na última sexta-feira (22) aos 91 anos (faria 92 no dia 21 de outubro). A Bahia perdeu um dos maiores políticos de sua história republicana. 

Seu corpo foi cremado na manhã deste domingo (24). Minha admiração por Waldir Pires é muito antiga e durante alguns anos pesquisei sua trajetória parlamentar (um mandato de deputado estadual entre 1955 e 1958 e três de deputado federal em eleições disputadas em 1958, 1990 e 1998).

Sua eleição para a Câmara de Vereadores de Salvador em 2012 foi posterior aos estudos acadêmicos que realizei na área de ciência política. 

Os textos abaixo foram publicados originalmente na lista de WhatsApp do site Alagoinhas Hoje e em páginas/grupos do Facebook. Optei por publicá-los no site Alagoinhas Hoje com objetivo de ampliar os acessos e compartilhar um pouco da conversa que mantive com Waldir Pires em janeiro de 2011. 

A ordem está em sentido inverso dos textos publicados no WhatsApp: o primeiro aqui (logo abaixo) foi o último que publiquei na lista.

Os textos não seguiram à risca as técnicas jornalísticas, que importam menos neste momento, mas buscaram tornar públicas informações sobre Waldir Pires e trechos da nossa conversa. A revisão também não foi rigorosa como costuma ser. 

Waldir Pires acreditava na política e em sua força transformadora da sociedade. Humanista, homem preocupado com os menos favorecidos, político por vocação, tribuno por excelência, ombreou-se aos maiores oradores de seu tempo e com quem conviveu na Câmara dos Deputados, a exemplo de Carlos Lacerda.

É preciso ressaltar, no entanto, que Waldir Pires e Carlos Lacerda tinham posições políticas diametralmente opostas, mas se igualavam na capacidade discursiva.

Em 2011, quando Waldir Pires completou 85 anos, artigo de minha autoria foi publicado no site Bahia Notícias.

https://www.bahianoticias.com.br/artigo/383-waldir-pires-trajetoria-em-defesa-das-liberdades-democraticas.html

 

Maurílio Lopes Fontes

Editor do site Bahia Hoje News 

 

SENADOR WALDIR PIRES

Waldir Pires disputou diversas eleições: para deputado estadual em 1954, deputado federal em 1958, ambas vitoriosas, governo do estado em 1960, quando perdeu para Lomanto Júnior, senador em 1982 (perdeu para Luiz Viana Filho), governo do estado em 1986, campanha que se tornou “case” de marketing político, vice-presidente da República em chapa encabeçada por Ulysses Guimarães na eleição “solteira” de 1989, deputado federal em 1990, senador quatro anos depois (1994), deputado federal em 1998 e vereador de Salvador em 2012 (sua última disputa eleitoral, 58 anos após a vitoriosa campanha de 1954 para deputado estadual).

Vitórias e derrotas que estão gravadas na história política da Bahia e do Brasil, que não podem ser avaliadas apenas pelos votos obtidos.
Mas uma derrota se sobrepõe às outras disputas e a linha do tempo, simbolicamente, a transformou em vitória.
Em 1994, Waldir Pires disputou uma das duas cadeiras para o Senado da República.
ACM confirmaria sua vantagem eleitoral.
A segunda cadeira seria decidida entre Waldir Pires e Waldeck Ornelas.
A Bahia foi surpreendida com a vitória de Waldeck Ornelas, que sempre esteve atrás de Waldir na contagem dos votos.
A certa altura, Waldeck Ornelas passou à frente de ACM em muitas urnas, algo bastante improvável, que lhe garantiu a vitória no confronto com Waldir por pequena margem.
Na Bahia, em 1994, a probabilidade foi subvertida.
A Justiça Eleitoral postergou por muitos anos a decisão e quando a prolatou foi desfavorável a Waldir Pires.
Eleito deputado federal em 1998, Waldir Pires mereceu tratamento especial de seus pares.
Nos apartes a seus discursos na tribuna da Câmara dos Deputados, a partir de 1999, era tratado como Senador Waldir Pires, tal o respeito que merecia e pelo reconhecimento da injustiça da Justiça Eleitoral.
É emocionante ler os discursos de Waldir Pires na Câmara dos Deputados e mais ainda os apartes de seus pares que o tratavam como senador.
Li mais de 600 discursos, apartes, questões de ordem e encaminhamentos de votações de Waldir Pires no exercício de seu único mandato de deputado estadual e dos três de deputado federal.
São verdadeiras aulas de democracia, respeito ao contraditório e de firmeza das posições adotadas.

WALDIR PIRES E A CRISE NO SETOR AÉREO

A conversa que mantive com Waldir Pires em janeiro de 2011, que foi gravada, versou sobre vários temas.
O crise no setor aéreo foi um deles.
Decisiva para sua saída do Ministério da Defesa em julho de 2007, a crise explodiu em função de razões profundas e estruturais do segmento aéreo, que não poderiam ser atribuídas apenas à gestão da pasta que Waldir Pires comandava.
O governo optou pela exoneração.
Ele saiu magoado, mas se manteve em silêncio por respeito ao presidente Lula e ao projeto político no qual acreditava.

WALDIR PIRES E ACM

Deputados estaduais eleitos em 1954, Waldir Pires e ACM haviam apoiado a candidatura de Antônio Balbino de Carvalho Filho ao governo do estado contra o historiador Pedro Calmon, irmão do jornalista Jorge Calmon, deputado eleito em 1950, e secretário de Justiça da administração Régis Pacheco.
Waldir Pires e ACM faziam parte da base aliada de Balbino e mantinham excelente convivência política.
Por conta de pesquisa acadêmica, li centenas de discursos/apartes/questões de ordem de Waldir Pires no decorrer de seu mandato de deputado estadual (naquela época os deputados estaduais tomavam posse no dia 6 de abril e o governador no dia 7).
Muitos fatos chamaram a minha atenção, mas uma fala de ACM merece citação:
“O deputado Waldir é um homem de palavra”.
Àquela altura, segunda metade da década de 50, ninguém poderia imaginar a distância que se estabeleceria entre os dois políticos baianos pós-64.
A oposição a Balbino era composta por deputados qualificados intelectualmente, a exemplo de Josaphat Marinho (Partido Libertador), Cruz Rios (jornalista com função importante em A Tarde), jornalista Wilson Lins, filho do coronel Franklin Albuquerque, dono do jornal O Imparcial, e tantos outros cujos nomes não estão na memória neste momento (escrevo sem qualquer anotação).
Waldir Pires foi incansável defensor do governo Balbino ao lado de Ladislau Cavalcanti, pai de Murilo Coelho Cavalcanti, prefeito de Alagoinhas por três mandatos, e avô do engenheiro Marcus Cavalcanti, secretário estadual de Infraestrutura.
Waldir demonstrou, na conversa comigo, grande carinho por Dr. Lili.

WALDIR PIRES E A HISTÓRIA

Entre meados da década de 40 do século XX e os anos 2000, excetuando “a grande noite ditatorial”, Waldir Pires participou no exercício de seus mandatos parlamentares de momentos únicos da história da Bahia e do Brasil.
1.Até 1957 a Bahia não tinha vice-governador.
A lei que criou o cargo foi votada pela Assembleia Legislativa e Waldir exercia seu primeiro mandato de deputado estadual.
Orlando Moscoso Barreto de Araújo foi o primeiro vice-governador da Bahia a partir de abril de 1958.
Havia sido deputado estadual com Waldir Pires, ACM e Lomanto Júnior.
2.Em seu primeiro mandato de deputado federal (1959-1962) muitos fatos aconteceram: fim do governo JK, vitória eleitoral de Jânio Quadros, a renúncia, grave crise política/militar e instituição do parlamentarismo que possibilitou a posse de João Goulart.
3.Eleito em 1990 para o segundo mandato de deputado federal com a maior votação do estado, Waldir Pires estava na Câmara dos Deputados quando Fernando Collor de Melo foi apeado do poder (1992) e Itamar Franco assumiu a presidência.
4.Em 1998, mais uma vez, Waldir Pires volta à Câmara dos Deputados. Exercia o último ano de seu terceiro mandato quando Lula ganha a eleição presidencial.

WALDIR PIRES

Tive o prazer de ser recebido por Waldir Pires em seu apartamento no mês de janeiro de 2011. Conversamos por quase três horas sobre seu nascimento em Acajutiba, seus pais, irmãos, a infância em Amargosa, os estudos em Nazaré das Farinhas, a chegada a Salvador nos anos 40, a luta pela redemocratização do Brasil, o primeiro contato com Antônio Balbino, a formatura em Direito em 1949 (foi o orador da turma e aos 23 anos já demonstrava grande capacidade intelectual), o ingresso na vida pública na administração de Régis Pacheco ao assumir a importante Secretaria de Governo, o rompimento com o governador em 1953, o apoio à candidatura vitoriosa de Antônio Balbino ao governo do estado, o sucesso na eleição para deputado estadual em 1954, a convivência fraterna com o deputado Ladislau Cavalcanti, pai do ex-prefeito de Alagoinhas Murilo Cavalcanti, os embates na tribuna da Assembleia Legislativa com a oposição ao governo balbinista, que tinha em Josaphat Marinho um mais aguerridos adversários, a candidatura vitoriosa a deputado federal em 1958, as disputas no plano federal com a UDN nos anos finais do governo JK, a vitória de Jânio Quadros, a implantação do parlamentarismo no Brasil (WP votou favoravelmente), a disputa em 1962 com Lomanto Júnior pelo governo da Bahia (em quase um milhão de votos WP foi derrotado por menos de 50 mil votos, tendo contra ele o Cardeal da Silva, poderoso dirigente da Igreja Católica na Bahia, que o considerava comunista, e o jornal A Tarde, poderoso veículo de comunicação que cerrou fileiras em apoio a Lomanto Júnior), o final do mandato na Câmara dos Deputados, o trabalho como consultor-geral da República a partir de 1963, as pressões da embaixada americana contra a lei de remessas de lucros, cujo arcabouço jurídico foi elaborado por WP, o golpe de março/abril de 1964, a fuga para o Uruguai, a residência na França até 1970, o retorno ao Brasil ainda sem os direitos políticos (Waldir não queria que os filhos tivessem o francês como a primeira língua), a luta pela redemocratização, inicialmente no Rio de Janeiro (início dos anos 70) e a seguir na Bahia (final da década de 70).
A conversa foi gravada.
Em 21 de outubro de 2011, quando Waldir Pires completou 85 anos, artigo de minha autoria sobre ele foi publicado no site Bahia Notícias e reproduzido em diversos sites do Brasil, inclusive na Tribuna da Imprensa (RJ), do combativo jornalista Hélio Fernandes, e no site do Instituto João Goulart.
Jango foi amigo fraterno de Waldir.
Alguns dias após a publicacão e repercussão do artigo conversei com WP.
Ele me agradeceu emocionado.
Eu retruquei: Dr. Waldir, o senhor não tem motivo para me agradecer. A Bahia é que te deve agradecimentos pelo senhor ser quem é.
Waldir conviveu com homens que estão na história política do Brasil e se situa entre os maiores.
No final da conversa em seu apartamento, já transcorridos tantos anos, eu lhe disse uma frase que hoje ecoa em minha memória: DR. WALDIR, O SENHOR VIVEU MUITAS VIDAS EM UMA VIDA SÓ.
Ele apenas sorriu.
Gente com a grandeza humana de Waldir Pires marca sua passagem no plano terreno e não morre, pois seu legado é algo que ficará para as novas gerações.
WP me presenteou com cópia do discurso que fez como orador da turma de direito, cuja formatura aconteceu em 5 de novembro de 1949.
Para finalizar, reproduzo aqui frase de Waldir Pires em conversa mantida comigo por telefone (conversei com ele algumas vezes e sua educação sempre foi a mesma, refinada e cortês):
MEU FILHO, MINHA TRAJETÓRIA FOI EM DEFESA DAS LIBERDADES DEMOCRÁTICAS.
Hoje, a Bahia e o Brasil perderam um tipo de homem que não se encontra mais por aí.
Homem íntegro, culto, com rara inteligência e preocupado com os destinos do nosso país.
Ainda teria muito mais para escrever sobre a conversa que mantive com Waldir Pires.
Talvez, em outra oportunidade, compartilhe outros trechos com vocês.